O sonho de ocupar a Casa Rosada ainda se mantém muito vivo no sanguíneo ministro da economia argentina, Domingo Cavallo. O que se vê desde que ele foi reconduzido ao controle supremo das finanças do vizinho país são demonstrações de sua arquitetura política para tal fim. Ele está trabalhando em três frentes, com objetivos bastante definidos e habilmente planejados.
Internamente, Cavallo vem conseguindo do fraco e impotente presidente De la Rúa poderes inimagináveis dentro de uma democracia moderna, para um ministro. Da outorga de superministro concedida pelo Parlamento caminha, agora, para conseguir mais poderes para tornar-se hiperministro.
Com tanta concentração de poderes, internamente, ele poderá estabelecer alianças e amarras políticas fortes para garantir-lhe incondicional apoio agora e no futuro. Caso consiga o controle da Previdência. Ministério do Interior, Receita Federal e Aposentadorias, terá em mãos armas incontestes de poder.
Externamente, o ministro trabalha buscando o apoio dos Estados Unidos e da Comunidade Européia. Essas potências dariam o respaldo internacional para sua candidatura e seria visto com simpatia por aquelas economias. Faz descaradamente aquilo que Diego Maradona disse quando esteve em Cuba: ‘‘O que os governos argentinos fazem bem-feito é beijar o traseiro dos americanos.’’ Se não são essas as palavras do ex-jogador de futebol, esse era o sentido delas.
Para tanto, o ministro Cavallo não tem hesitado em conceder facilidades comerciais para os produtos daquelas países, bajulando, ainda, com outros benefícios comerciais, conciliando habilmente essas negociações com argumentos de que são fundamentais para a debilitada economia argentina superar esses momentos de turbulência etc.
Quando aceitou retornar ao comando da economia, Cavallo, mais que ninguém, sabia da impossibilidade de reerguer o país com base na manutenção da atual política cambial. Essa impossibilidade é levantada por 99% dos economistas que comentam aquele país. Será que o mundo todo está errado e só o caudilho está certo?
Mas, caso tivesse ele alguma esperança naquela época, agora não a teria mais. Isso está claro. E, nesse terremoto que se avizinha, ele precisa salvar-se e sair mais fortalecido. É aqui que ele articula sua terceira frente de ação rumo à presidência futura.
O ministro não pode de forma alguma deixar que seu Plano Cavallo, elaborado na época de Menen, seja o culpado maior da quebradeira argentina, o que viria a acabar com seus planos políticos.
Então, maquiavelicamente, Cavallo elegeu o Brasil como o Grande Satã, pois ele sabe que nossas rivalidades não se limitam ao futebol. Elas existem faz muito tempo, antes mesmo da primeira partida de futebol. Dificilmente ‘‘los hermanos’’ brasileiros e argentinos deixarão de ser Caim e Abel, ao menos no conceito mais das massas. Por isso, Cavallo está desrespeitando acordos, contratos, negociações.
Por isso ele anda espalhando críticas contra o Brasil pelo mundo afora. Por isso vive bombardeando o Mercosul. Tudo esperando reações adversas do Brasil. Quanto mais o Brasil retarda sua reação, maior é a munição que Domingo Cavallo usa. Parece que agora, conforme desejo do ministro argentino, o Brasil começa a reagir.
Quando o ministro Cavallo perceber que a situação argentina estiver no limite, deixará seu posto. Atribuirá sua renúncia às pressões brasileiras que inviabilizaram suas reformas etc. Saberá explorar muito bem essa rivalidade e sairá com a simpatia de todos os platinos, ‘‘vitimados pelos imperialistas brasileiros’’.
Ao seu substituto restará tentar juntar os cacos que sobrarem naquele país, enquanto o mundo aguardará a eleição do futuro presidente Domingo Cavallo.
- JOSÉ RUBENS COSER é bancário aposentado e professor licenciado em Londrina

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