Brasil chora o leite derramado
Com o processo de abertura por que passou nesta década, a economia brasileira cresceu e modernizou-se, rompendo a camisa-de-força que lhe obstruía os negócios e a isolava do mundo. Conduzido, porém, como foi, precipitada e impacientemente, o programa acabou por favorecer os empresários do exterior em detrimento dos produtores nacionais, entregues à própria sorte ao disputar um mercado em que, sabemos, prevalecem os subsídios governamentais e os instrumentos protecionistas.
Danosa à indústria e ao comércio, a competição desigual ocasiona perdas ainda maiores para a agricultura, vítima secular da inação das autoridades e da indiferença dos governos, não obstante a luta com que os produtores rurais concorrem para fortalecer a nossa economia.
Prova desse tratamento injusto é a verdadeira liquidação a que se vem submetendo o rebanho leiteiro do País. Sem a menor condição de fazer frente ao leite que importamos, e que chega ao Brasil fortemente subsidiado, os donos dos melhores plantéis estão dizendo adeus ao setor. De janeiro a setembro, uma única empresa de leilões especializada em gado leiteiro vendeu 6.684 fêmeas da raça holandesa, entre puras, mestiças e cruzadas.
De acordo com o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite B, Roberto Hugo Jank Júnior, essas vendas maciças pulverizam o que há de melhor nos rebanhos das regiões Sul e Sudeste, ao deslocar os melhores reprodutores e matrizes para outras unidades da Federação. Observe-se que apenas os estados de São Paulo e de Minas Gerais respondem por cerca de 55% de toda a produção de leite no Brasil.
O pior é que estão deixando o mercado o que Roberto Jank classifica de produtor-empresário, um profissional do setor que, além de produzir muito, não poupa esforços nem recursos para manter a excelência do que oferece ao consumidor. É o caso da maior produtora individual de leite tipo B do Brasil, instalada em 5.500 hectares no município de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo: em 1991, importou novilhas do Canadá e comprou embriões nos Estados Unidos para, nove anos depois, pôr à venda todo o seu rebanho de gado holandês, composto por 3.500 fêmeas que dão 30 mil litros de leite/dia.
Custos altos de produção, preços baixos e a concorrência com o leite longa vida que, de qualidade inferior, pode ter maior variação de preços são os motivos alegados por um dos diretores da empresa para a opção pela pecuária de corte, em detrimento do plantel leiteiro que se pode incluir entre os melhores do mundo.
Novamente, o Brasil chama a atenção por andar em marcha à ré: enquanto europeus e norte-americanos investem nos rebanhos leiteiros para que produzam cada vez mais e melhor, dizimamos o gado que nos custou um investimento de milhões. Compete ao governo adotar uma política oficial de preços que contrabalance os subsídios do leite importado, sem o que permanecerão os produtores brasileiros condenados à insolvência e à ruína.
Esse é o apelo que nos julgamos na obrigação de fazer ao presidente Fernando Henrique e ao Ministro da Agricultura, Pratini de Moraes.
Muito mais do que espécie que se produz, que se vende e que se compra, o leite é alimento simbólico, que nos sacia a fome e nos dá forças para lutar por um Brasil melhor, mais justo e mais saudável.
- ALEX CANZIANI SILVEIRA é deputado federal pelo PSDB-PR





