Brasil, apague a luz
Na época do regime militar, o Brasil emprestava dinheiro de bancos internacionais, a rodo, e estes, por sua vez, faziam questão de socar as cifras no País da Amazônia, a juros estratosféricos. Bom negócio para eles, é claro de modo que pagamos tais empréstimos até hoje, dilacerando nossos cofres públicos e, sobretudo, com sinais obscuros sobre o emprego da verba à sociedade tupiniquim.
Dadas as proporções gigantescas da bufunfa, havia então a necessidade de justificá-la. Foi exatamente nessa época que deparamos com um Brasil quase irreconhecível diante da sua história, vivendo um carnaval de projetos, construções, desviações etc: abertura de estradas e obras no setor de transporte (Transamazônica, metrô de São Paulo); construções no setor de energia elétrica capazes de impressionar o mundo, ora pelo tamanho, ora pela inviabilidade e disparidade o crescimento da indústria e seu consumo era pertinente à produção de energia (Tucuruí, Itaipu e Angra); cidades e parques industriais em lugares inóspitos (Zona Franca de Manaus).
Surgem então, nas duas últimas décadas, novas promessas políticas, forma de governo e idéias inovadoras neoliberais, na tentativa de se rotular um país democrático, sério, bem administrado e aberto ao seu povo. Taparam mal a ferida. O lema de Juscelino Kubitschek de transformar 50 anos em cinco, poder-se-ia chamar, em épocas atuais, de abcesso à gangrena.
Chegamos ao racionamento de energia elétrica, e sobre isso é necessário um quadro. A Usina de Furnas, por exemplo, armazena um dos maiores reservatórios de água artificiais do mundo. Seu lago estava 12,3 metros abaixo do nível normal no dia 21 de março (da capacidade de 17,2 bilhões de metros cúbicos de água, estava usando apenas 21,77%. Ele é responsável por 17% da produção nacional de energia).
O complexo de concreto armado, nascido de um decreto assinado pelo presidente Juscelino para superar a crise energética na época 1957 fracassa 40 anos depois, e são iminentes as possibilidades de racionamento e, logo, de um colapso em regiões abastecidas também por Furnas: Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste.
A engenharia tenta suprir variações pluviométricas, armazenando verdadeiros mares em paredes de concreto gigantescas. Tal variação torna minúscula tamanho investimento. Ao depararmos com tal realidade, o susto parece algo inevitável. São nada menos que 125 milhões de pessoas que poderão ficar no escuro. Como se não bastasse, a inexequibilidade no setor pode naufragar o ritmo de crescimento da indústria crescimento inexistente na época das babilônias construídas há duas ou três décadas. Decerto, evidencia-se a eloquente falta de planejamento no setor.
Nos Estados do Sul, o problema parece longe da realidade. A Hidrelétrica de Itaipu produz energia de sobra para a demanda local, porém não há rede de transmissão para deslocar parte de sua produção à região Centro-Oeste, por exemplo.
Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético, Maurício Tolmasquim, esse problema começou porque o governo parou de investir, apesar de as estatais do setor terem dinheiro. Já o BNDES levantou estudo atribuindo a atual situação aos erros do governo no lento processo da privatização do setor.
Há sete anos discute-se a questão de Furnas, e a indefinição do caso sob a esfera política deve perdurar por um bom tempo. Muitos se opõem a tal. Dá-se então o velho empurra-empurra: o governo não reinveste porque, bem ou mal, o negócio vai a leilão. O setor privado, por sua vez, também não investe porque o negócio ainda não saiu.
O governo tenta responder, buscando inspiração no modelo inglês, em cujo processo de desestatização bem ou mal cada comprador não pode adquirir mais de 10% de ações da empresa, objetivando, assim, a não junção da maioria absoluta das cotas e efetivamente, a não exposição do produto nas mãos de grandes monopólios.
Já o ministro das Minas e Energia, José Jorge, admite: Estamos preparando um plano de racionamento. Evitando o alarmismo, fala-se em corte na própria iluminação pública para diminuir o consumo e, logo, evitar o caos. Ora, a situação já é caótica em muitas cidades, onde existem bairros com toque de recolher determinado por marginais. Sem iluminação num lugar desse, sugiro a criação do toque de esconder.
Segundo a Associação dos Engenheiros do Estado de São Paulo, para alavancar uma solução de falta de energia (esta com crescimento estimado de 5,5% ao ano), será necessária a duplicação de sua produção nos próximos 14 anos. A solução não mais paira sobre a hidro, mas sobre a eólica, a gás, solar etc. Todavia, imaginem a construção de mais uma, duas ou três Itaipu? Viveremos sobre palafitas, plataformas e outras estruturas flutuantes.
Diante do contratempo, expõe-se como alternativa a implantação emergencial de termelétricas no País, abastecidas principalmente pelo gás boliviano. Porém, o gás natural é cotado em dólar, assim como pelo menos 70% dos equipamentos de uma termelétrica, transpondo outro problema primário. A tarifa, contudo, não pode ser dolarizada. Assim, os investidores em potencial recuaram, e o programa só começou a decolar com a entrada societária da Petrobras na maioria dos projetos em construção.
Algumas empresas já investem milhões de reais em geradores de energia elétrica, para assegurar o atendimento a seus clientes e o subsídio próprio na geração de energia. O governo tenta viabilizar prêmios a indústrias e lares do Brasil que registrarem um decréscimo no consumo. É mais um plano. Um plano emergencial! Para remediar, e não para prevenir. Ou isso funciona, ou vamos cantar: Tchutchuca, vem aqui na escuridão.
- CLEI GILBERTO BROENSTRUP é administrador escolar em Umuarama, Cascavel e Londrina
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