Brasil: a história sepultada
Joel Rufino dos Santos
Este ano se comemora cinco séculos da chegada ao Brasil dos conquistadores portugueses, no dia 22 de abril de 1500. Já foram realizadas inúmeras cerimônias, e em todas elas o povo esteve ausente. Isto se deve a que os atuais detentores do poder, não importa a qual partido pertençam, celebram uma façanha de sua própria linhagem política. Eles descendem em linha direta dos conquistadores que aqui chegaram há 500 anos, apropriaram-se das terras e escravizaram os indígenas.
O mesmo aconteceu quando se comemorou o sesquicentenário da Independência (1972), o centenário da Abolição da Escravidão (1988) e o da República (1989). Que cada qual enterre seus mortos, dizia um adágio latino. Os que controlam o poder no Brasil enterram, com estas cerimônias, seus antepassados e, assim, trazem para o presente o espetáculo de 100, 200, 500 anos atrás. A continuidade é linear: o presidente de hoje é o governador-geral de ontem, assim como o cardeal primaz é o arcebispo e o comandante-geral das Forças Armadas é o capitão-mor daqueles tempos.
Do mesmo modo, o atual Movimento das Nações Indígenas é herdeiro direto dos povos que resistiram à invasão de suas terras, que então não eram brasileiras, mas tupinambá, teminimó, carijó, goitacá, coroado, guaianá, charrua etc. Esses povos indígenas foram os primeiros trabalhadores e os primeiros agricultores sem-terra deste País. E todos os brasileiros, brancos ou negros, descendem, em primeiro lugar, de índios. Social e politicamente, os trabalhadores de hoje – por exemplo, um operário metalúrgico de São Paulo – correspondem aos carpinteiros, pescadores, remadores, cozinheiros e criadas de 500 anos atrás. Sem eles, os europeus não teriam caminhado um passo na América. Se a história fosse justa, eles deveriam ser os principais homenageados do aniversário.
Por sua vez, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em sua peregrinação de fazenda em fazenda, atualiza a peregrinação dos tupi em busca da mítica Terra Sem Males, onde a terra era de todos, as mulheres não envelheciam, as espigas de milho ultrapassavam a altura de um homem, as crianças não adoeciam e os animais selvagens dormiam no colo dos anciãos.
Em consequência, a reforma agrária está gravada no imaginário coletivo do povo brasileiros há 500 anos. Por isso, os povos indígenas e o MST não comemoram o ‘‘descobrimento’’ do Brasil, mas a resistência dos primeiros trabalhadores e dos primeiros sem-terra do colonialismo português. E comemoram a Confederação dos Tamoyos. Tamoyo não designa uma tribo de índios, como se ensina nas escolas. É uma palavra da língua tupi tamuya que significa ‘‘o mais velho do lugar’’. Quando um índio chamava a si mesmo de tamoyo, queria dizer que havia chegado primeiro ao território que habitava.
Mas, o que foi a Confederação dos Tamoyo?
A fase idílica do ‘‘descobrimento’’ da Baía da Guanabara, em cujas margens nasceu a cidade do Rio de janeiro, durou menos de 10 anos, até que chegaram os franceses e iniciaram uma troca comercial com os tupinambá. Quando os franceses decidiram passar da troca para a colonização, apresentou-se à população tupinambá o inusitado dilema de escolher com quem deveria aliar-se. Os portugueses eram os mais fortes e, naturalmente, prevaleceu a opção de aliar-se com o estrangeiro mais fraco.
Essa aliança foi o primeiro pilar da Confederação; o segundo, a aliança interna das tribos. Este último objetivo parecia fácil, já que ao longo do atual litoral entre Espírito Santo e São Paulo, com cerca de mil quilômetros, todas as tribos pertenciam à etnia tupinambá.
A Confederação dos Tamoyo será o esforço trágico, porque condenado ao fracasso, de estabelecer a união interna dos tupinambás contra a invasão portuguesa valendo-se do aliado francês, que era tão colonialista quanto o primeiro. A meta era inalcançável, já que a organização das sociedades indígenas era, por definição, particularista, centrada na guerra intertribal.
A insurreição tamoya contra os portugueses durou cerca de 10 anos e terminou com um extermínio em massa da população tupinambá. Embora o desenlace tenha sido adverso para os indígenas, não se pode esquecer que esse processo tem duas faces. A nós, é mostrado o lado que engrandece as proezas dos portugueses, algumas quase incríveis vistas de uma perspectiva moderna. Mas, se é certo que houve heroísmo e coragem entre os brancos, o mesmo ocorreu entre os indígenas. Só que o heroísmo e a coragem deles não foram transmitidos à história, perdendo-se irremediavelmente junto com a destruição do mundo em que viviam.
Portanto, compreende-se porque os índios e os sem-terra são excluídos das comemorações oficiais. O mesmo acontecendo com os negros. A tradição brasileira consiste em representar este país como uma criação de europeus, secundados por negros e índios.
Em resumo, a concepção oficial da comemoração dos 500 anos é perfeita como colocação em cena da história do Brasil: abaixo estão os índios, os sem-terra e os negros. No cume, estão os brancos, desde o descobridor Pedro Álvares Cabral até o atual presidente, Fernando Henrique Cardoso. E os índios, os sem-terra e os negros, embora não participem das cerimônias, continuam representando seus papéis: Movimento das Nações Indígenas, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Movimento Negro. Que cada qual enterre seus mortos.
- JOEL RUFINO DOS SANTOS é professor universitário, historiador e escritor no Rio de Janeiro (IPS)

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