Em 1994, participei de uma missão oficial ao Japão, liderada pelo então deputado federal Antonio Ueno. Visitamos diversas instituições e órgãos japoneses. Um encontro, em especial, ficou gravado na memória: uma reunião em uma câmara de comércio onde nos foram apresentados dois polos estratégicos de investimento para os anos seguintes. De um lado, o Brasil, com previsão de receber US$ 100 bilhões. Do outro, a China, com estimativa de US$ 600 bilhões em aportes. Naquele momento, as economias dos dois países eram similares — o Brasil, inclusive, levava vantagem no PIB total e grande vantagem no PIB per capita. As projeções indicavam que ambos poderiam despontar como potências econômicas nas décadas seguintes.

No entanto, o que se viu foi uma curva de desenvolvimento profundamente desigual. Pouco antes do ano 2000, a China já havia ultrapassado em muito o Brasil em Produto Interno Bruto. Em meados de 2016, a diferença de PIB per capita — que antes nos favorecia amplamente — também foi revertida. Considerando a enorme população chinesa, esse feito sinalizava algo ainda mais relevante: o PIB total da China havia se multiplicado exponencialmente. Hoje, a economia chinesa é mais de oito vezes maior que a brasileira.

Na mesma viagem, também visitamos a Coreia do Sul, país que, à época, possuía uma economia em estágio semelhante ao nosso. Hoje, é outro que nos ultrapassou com folga no PIB per capita. Não se trata de coincidência, e sim de escolhas.

A pergunta inevitável é: o que aconteceu com o Brasil?

A resposta, infelizmente, é conhecida por todos nós. Ficamos atolados em uma administração pública amadora, pautada por politicagens, decisões populistas e visão de curto prazo. Ignoramos investimentos estruturais, negligenciamos a infraestrutura, mantivemos um Estado pesado e ineficiente, e assistimos à derrocada da qualidade educacional — paradoxalmente, em um momento em que o acesso à informação se expandia globalmente.

Pagamos uma carga tributária elevada, mas sem retorno efetivo à sociedade. Criamos uma legislação monstruosa, repleta de normas, decretos e regras que travam a economia e confundem até os especialistas. O setor produtivo é sufocado, não apenas pelos tributos, mas também por uma burocracia asfixiante e insegurança jurídica constante.

Em meio a tudo isso, ainda conseguimos transformar o necessário cuidado com o meio ambiente em mais uma barreira ao desenvolvimento. Ao invés de normas claras, objetivas e eficientes, criamos entraves vazios de critérios técnicos, usados muitas vezes para sabotar projetos que poderiam gerar progresso com responsabilidade ambiental. O exemplo emblemático é o Rodoanel de São Paulo: após mais de duas décadas, a obra continua inconclusa, vítima de disputas e morosidade.

Parece que nos tornamos especialistas em encontrar maneiras de não avançar. E o tempo, esse recurso implacável, cobra caro. Recuperar décadas de atraso é extremamente difícil. Pior ainda: enquanto tentamos andar, os países que apostaram no desenvolvimento correm — e a distância só aumenta.

O Brasil precisa, urgentemente, levar a sério o seu futuro. Não podemos continuar prisioneiros de escolhas erradas, de ciclos viciosos e de um sistema que privilegia o imediatismo em detrimento de uma visão estratégica de longo prazo. Precisamos resgatar o compromisso com a educação de qualidade, com a produtividade, com a modernização do Estado e com o investimento inteligente. Mais do que nunca, é hora de agir com responsabilidade, competência e visão.

Porque, na corrida do desenvolvimento, perder alguns anos pode custar gerações inteiras.

Ary Sudan, leitor da Folha

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