Brasil, 500
anos: lamento
ou comemoração

Wander de Lara Proença
A epopéia comemorativa dos 500 anos do Brasil, propagada pelos principais meios de comunicação do País, tem sido caracterizada por uma visão romântica e ideologicamente tendenciosa das tragédias que acompanharam o processo de colonização e conquista e que se perpetuam até aos dias atuais. Uma compreensão mais realística dos fatos que marcaram estes cinco séculos, desde a chegada de Cristóvão Colombo à América em 12 de outubro de 1492, certamente nos adverte de que o momento atual é muito mais oportuno para reflexão e lamento do que para comemoração.
Afinal, teríamos razões para comemorar, sabendo que quando da chegada dos europeus à América havia mais de 60 milhões de ameríndios habitando este continente, povos que aqui chegaram há mais de 30 mil anos, sendo que em apenas três séculos de colonização esta população foi reduzida para 10% do seu total – vítimas das armas, das doenças e da fome, e assim personagens do maior genocídio que a história já conheceu.
Que houve em três séculos, o tráfico de mais de 9 milhões de negros para a América (sendo o Brasil responsável pela importação de 4,5 milhões); sabe-se que não somente o catolicismo romano foi conivente com esta prática, mas também, que nações protestantes (Holanda, Inglaterra) foram as principais responsáveis por este tráfico nos navios negreiros; com a agravante de que milhões de negros ainda continuam sofrendo discriminação pela cor de sua pele e marginalizados por uma sociedade que lhes dificulta o acesso à educação (qual o índice de negros que chegam a um curso superior, por exemplo?), à ocupação de cargos públicos, ou até mesmo à liderança das igrejas cristãs que aqui se instalaram.
Que Portugal, o país colonizador, tinha na época apenas 1 milhão de habitantes, enquanto que aqui viviam cerca de 5 milhões de ameríndios. Que antes da desastrosa chegada dos europeus, eram mais ou menos 1.300 línguas faladas pelas populações indígenas que habitavam estas terras; hoje, restaram 180. Os conquistadores calaram 1.120 línguas.
Que milhões no Brasil sobrevivem sob a condição de extrema miséria, sem direito ao alimento básico, à saúde e à educação, sendo herdeiros diretos deste processo predatório e necrófilo aqui implantado pela égide do capital, ao longo destes 500 anos.
Há cerca de três anos, filhos da elite de Brasília atearam fogo no corpo do índio pataxó Galdino, e, quando questionados pela Justiça, alegaram: ‘‘Pensamos que era um mendigo’’. Na verdade, nós brancos quando aqui chegamos, disfarçados de civilizados e de cristãos, jogamos premeditadamente o ‘‘líquido inflamável’’ da ganância, da dominação opressora sobre as populações que já habitavam estas terras há mais de 12 mil anos.
Durante cinco séculos ‘‘queimamos’’ só no Brasil quase 5 milhões de índios sem nenhuma compaixão. Hoje, os 350 mil que sobreviveram ao nosso massacre foram transformados em ‘‘mendigos da floresta’’. Galdino, sem-terra, morreu sem teto, no relento, sem ver realizado o sonho da vida. No local da barbárie um pequeno e triste detalhe, em meio às cinzas e à desolação: um par de sandálias – que deixara de calçar os pés do seu dono, aquele que horas antes marchava e reivindicava a demarcação de um pedaço de terra para o seu povo.
Após um ano, a Justiça considerou que o atentado contra Galdino foi uma brincadeira de crianças inocentes, que não sabiam que o fogo poderia matar pessoas. Mais um crime que ficou impune, e, como tantos outros nestes 500 anos de ‘‘descobrimento’’, caiu no esquecimento.
- WANDER DE LARA PROENÇA é professor de História e Teologia em Londrina

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