Brasil, 500 anos de corrupção

Maria Lucia Victor Barbosa
É possível que o título deste artigo, ‘‘Brasil, 500 anos de corrupção’’, choque alguns leitores. Naturalmente, não estou afirmando que só exista isso em nosso País, nem que todos os brasileiros sejam corruptos. Não se trata disso. Inclusive, tenho consciência de que a corrupção é inerente à humanidade e se encontra incrustada em todas as sociedades deste planeta desde que mundo é mundo. Entretanto, temos presenciado ultimamente tais descalabros nos meios públicos, que um inevitável desabafo de quem trabalha para se sustentar, entra em fila e paga os impostos em dia, é inevitável.
Sobre impostos, aproveito para dizer que me sinto espoliada. É que sendo descontada na fonte, como todo assalariado, este ano tenho que devolver aos cofres públicos quase o dobro do que paguei o ano passado. Por quê? Porque há cinco anos não há reajuste de uma maldita tabela que penaliza a faixa dos que ganham menos e contempla os que ganham mais com descontos menores. Assim me explicou o contador, baseado em contas e cálculos que fogem a minha escassa compreensão, e que se perdem em intricados e labirínticos desígnios do Imposto de Renda.
A questão de fundo, porém, não se situa tão-somente no que pagar, mas para que pagar esta quantia, pois se pagamos pesados impostos neste País, o que fizeram até hoje nossos governantes com tamanhas somas, se continuamos com problemas estruturais ligados a pobreza que infesta essa Nação, que sufocam a classe média e que estabelecem contrastes sociais incompatíveis com a projeção de grandeza que sempre se esperou para o Brasil?
E por que nossos impostos de quase nada servem para aliviar nossas distorções sociais, nossa educação equivocada, nossa saúde indigente, nossa Justiça injusta, nossa carência de bens essenciais para a maioria do povo? Porque, em primeiro lugar, temos uma corrupção endêmica, que se alastra pelos meandros da sociedade e tem no Poder Público os melhores exemplos e os melhores incentivos.
Deriva daí a impunidade, que faz o homem comum aceitar como coisa natural o furto de que é vítima. É que sendo um misto de ingenuidade e carência, este ainda almeja o manto protetor de um líder populista que possa lhe dar migalhas enquanto se banqueteia às escondidas à custa do seu incauto defensor. Nessa triste realidade, vicejam os desmandos consentidos e aceitos como naturais, enquanto a Justiça se omite e muitos nos meios policiais compactuam e participam dos crimes que deveriam combater.
A lama está tão avassaladora, que vale a pena repetir o que escreveu Benedicto Ferri de Barros no ‘‘Jornal da Tarde’’, do dia 7 passado: ‘‘Como vemos nos dias de hoje, quando se erguem os tapetes e se abrem os armários, a República brasileira se converteu em uma verdadeira mafiocracia, na qual numerosas famiglie vivem, clandestina e criminosamente, do furto dos dinheiros públicos, praticados sob inumeráveis modalidades. De salários absurdos autoconcedidos, a superfaturamento de obras, a concorrências falsificadas, à venda de segurança e achaques praticados por policiais e fiscais. A corrupção é como o câncer: ignora limites. Na atualidade, fez do Estado um valhacouto para criminosos de toda a espécie em todos os setores e, invadido pelo narcotráfico e outras redes de banditismo e criminalidade, ameaça caminhar, como no modelo colombiano, para uma república por eles governada’’.
Nossa corrupção, que hoje chega a causar estupor pela desfaçatez dos corruptos que alegam inocência angelical, foi germinada ao longo dos séculos. Ela tem raízes históricas que se prendem ao Estado evangelizador, absolutista e patrimonialista a partir do qual fomos engendrados e, diferentemente de Benedicto Ferri de Barros, que afirmou em seu referido artigo que a corrupção brasileira data de Getúlio Vargas, digo que há 500 anos se suborna, furta-se e se corrompe nessa terra de facilidades e de omissões. Mesmo porque, tudo sempre dependeu do Estado. O comércio e a indústria estavam atados às autorizações, às tarifas protecionistas, às concessões. E, no chamamento de empresários, oferecendo-lhes concessões e garantindo-lhes juros, não faltava, apesar da austeridade do segundo reinado, a corrupção.
Agora, porém, a coisa está mais escancarada e mais impune. Por isto, mesmo sofrendo as mais graves acusações, vemos homens pertencentes ao Poder Público se agarrando vergonhosamente a seus cargos e procedendo como se nada houvesse, enquanto manobram nas sombras acolhedoras da Justiça.
Parece que o caso Collor foi uma exceção. Sua punição foi política, rápida e retumbante. Mas o estigma do ex-presidente não se transferiu a ninguém mais. Assola o País grossa corrupção, enquanto Pitta, o prefeito de São Paulo, continua a desfrutar das delícias do poder apesar de graves acusações não averiguadas que sobre ele pesam.
Em Londrina, parece que se montou um teatro burlesco de onde a lama espirra por todos os lados. Mas nada aparentemente acontece, exceto a ação quixotesca de alguns grupos em busca de moralidade. Disse-me um dos integrantes desses grupos, que há momentos em que eles se sentem arrefecer diante do tráfico de influências e do poder econômico corruptor que têm de enfrentar numa luta completamente desproporcional. Aliás, temos nesse País o curioso hábito de transformar os que denunciam o mal em algozes, e os bandidos em vítima. E, assim, gira o povo em eternos retornos, reelegendo quem não merece, sendo que nisto está embutida a lógica brasileira do ‘‘me engana que eu gosto’’. Nesse masoquismo político ou nessa ignorância cívica, compraz-se o eleitor comum que sem pestanejar proclama: ‘‘Ele rouba mas ajuda a gente’’. E desse modo entraremos no novo milênio, carregando eufóricos 500 anos de corrupção e pedindo bis.
Enquanto isso, volto a repetir que me sinto esbulhada pelo fisco. Ademais, gostaria de saber o que fizeram e o que farão com o dinheiro que ganhei trabalhando, porque tenho a impressão de que ele vai continuar servindo a quem não merece, e esse estado de coisas precisa mudar.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e escritora em Londrina
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