Em 16 de janeiro deste ano, neste mesmo Espaço Aberto, publiquei o artigo intitulado ‘‘O ministro que ri’’. Neste texto referi-me a Rafael Greca de Macedo, e em determinado trecho, escrevi: ‘‘Agora o deputado mais votado do Paraná nestas últimas eleições, com 226.654 votos, e o terceiro mais votado do País, foi convocado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para ocupar o Ministério de Esporte e Turismo, e sem dúvida fará de sua missão um ministério no sentido mais profundo desta palavra, pois este é um cargo onde será possível transbordar seu sentimento de paranidade para o de brasilidade’’.
De fato o ministro Rafael Greca não tem feito outra coisa, como se as cores de nossa bandeira tivessem se impregnado indelevelmente no seu espírito e não apenas se encontrassem estampadas nas paredes auriverdes do ministério que comanda com sua conhecida energia solar. E lendo através da imprensa que o presidente da República transferiu a coordenação das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil do Itamaraty para o Ministério de Esporte e Turismo, só posso concluir que o presidente de novo acertou em cheio.
Penso assim porque sei que o ilustre político paranaense não estará atento apenas ao aspecto festivo do acontecimento, mas à frente de uma campanha de alteração de mentalidade, que inclui a exaltação de nossa própria dignidade enquanto povo e a busca dos nossos mais verdadeiros e altos valores. Isso não tem nada a ver com ufanismo ou sentimento exagerado de pátria, que conduz à falastrice vazia e, quando não, mentirosa, mas à sensação de pertencer a uma grande nação, dadivosa através de suas deslumbrantes belezas naturais e do seu imenso potencial de riqueza, que como mãe protetora está sempre pronta a acalentar seus filhos no regaço generoso.
Naturalmente Rafael Greca sabe, como nós brasileiros devemos saber, que uma nação é constantemente reconstruída e reinventada pelos cidadãos que nela habitam. E esta me parece ser a principal meta deste ministro. Ele quer juntamente conosco reinventar o Brasil através de um cauteloso otimismo, sendo que nas comemorações dos 500 Anos competirá a cada um de nós redescobrir este ‘‘gigante’’ ainda adormecido. Esta aventura poderá se dar se nos infundirmos da mesma coragem dos antigos descobridores, que se lançaram há 500 anos em ‘‘mares nunca dantes navegados’’. Eles enfrentaram os perigos do seu tempo, sendo que a nós cabe fazer frente aos desafios impostos pelo continente Brasil, que na fímbria de um novo século pede passagem pelos mares do futuro. Os remos do barco da Pátria estão em nossas mãos. Somos milhões de timoneiros. Somos os criadores de nossas oportunidades. Somos capazes de derrotar crises porque nossas armas deverão sempre ser o trabalho, a imaginação e a vontade. E a consciência destas certezas e desta coragem é que deverão se transformar na verdadeira festa do meio milênio de Brasil, sendo que o ministro Rafael Greca está ciente desta essência.
Ainda no século passado, mais precisamente em 1881, o francês Louis Couty colocou suas observações sobre nosso país na obra ‘‘L’esclavage au Brésil’’. Num determinado trecho do livro ele afirmou: ‘‘O Brasil não tem povo, pois o largo espaço compreendido entre a alta classe dirigente e os escravos não se acha suficientemente preenchido’’. ‘‘...em nenhuma parte se encontrarão estas massas fortemente organizadas de produtores livres, agrícolas ou industriais, que, em nossos povos civilizados, são a base de toda a riqueza, bem como não se acharão massas de eleitores sabendo pensar e votar, capazes de impor ao governo uma direção definida’’.
A ótica daquele francês foi severa para com os brasileiros, mas talvez ele tivesse lá suas razões. Entretanto, como mudamos! Temos hoje fortes massas de produtores livres, agrícolas e industriais que são a base de nossa riqueza, e como eleitores já evoluímos muito no processo de saber pensar e votar, faltando-nos ainda aperfeiçoarmos nossa cidadania para sermos capazes de impor aos nossos governos uma direção definida.
Por outro lado, que tenhamos a coragem de uma auto-análise. Neste sentido, é preciso aceitar, depois de entender o peso de nossa formação e origem, que ainda temos mania de atribuir a culpa de nossos problemas a fatores externos, e nunca aos nossos próprios erros. Criticamos o poder do Estado, mas costumamos depender dele para tudo como crianças dependem dos pais. Não temos senso das medidas, sendo capazes de passar de um extremo ao outro, sobretudo em termos de auto-estima nacional. Afetamos cordialidade, mas sabemos ser violentos. Imitamos com facilidade, nos deixando levar por modismos. Simulamos democracia, mas somos autoritários. Não impedimos com maior veemência a mentalidade do atraso, presente em governantes e certos movimentos ditos sociais, que teimam em regressar no tempo em vez de seguir em frente nos caminhos da modernidade.
Mas mesmo que ainda exista um caminho a percorrer, construamos juntos este caminho para que ele desemboque no progresso e na prosperidade, que jamais devem ser confundidos com utopias erráticas, mas sim compreendidos como ideais baseados na justiça, na paz e na solidariedade.
Pinte, pois, o ministro Rafael Greca, cada um de nós de verde e amarelo. Façamos nossa comemoração dos 500 anos sabendo que há muito a festejar nestas imensidões brasileiras. E ergamos bem alto nossa bandeira em 2001, recordando emocionados Castro Alves: ‘‘Auriverde pendão da minha terra/Que a brisa do Brasil beija e balança’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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