O jornalista, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues cunhou, após a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, a expressão "complexo de vira-lata". Servia para explicar o sentimento de inferioridade verde-amarelo, num primeiro momento restrito ao futebol e depois assimilado pela nação para justificar uma série de fracassos nas mais diversas áreas da vida nacional. O termo vira-lata era sim uma referência aos cães sem pedigree que perambulam famintos a esmo pelas ruas. Essa era a metalinguagem compreendida pela tigrada que aos domingos lotava a geral do Maracanã.
Em São Paulo, o ex-governador, ex-prefeito e ainda pretenso candidato à Presidência da República em 2014, José Serra, ao discursar para uma seleta plateia de tucanos, afirmou que o PSDB tem "um pouco de bovarismo, de precisar ser aceito pelo PT". O neologismo, por sinal adequado aos convivas de ocasião, faz menção ao romance "Madame Bovary", do escritor francês Gustave Flauber. Nele, ainda segundo Serra, madame Bovary "vai à loucura, quebra a família e trai o marido com Deus e o mundo" para ser aceita pela sociedade da época. Contestou a postura política dos tucanos ao afirmar que o partido não consegue estabelecer uma estratégia de embate com o governo federal. Tocou o dedo na ferida ao dizer que, invés do debate, o PSDB faz política "pelas colunas de jornais". Concluiu que "é preciso adotar um discurso de mudança".
Poucas vezes na seara peessedebista alguém foi capaz de fazer uma avaliação tão objetiva. Se as proposições apresentadas darão certo é outra questão. Mas a lógica do discurso é inegável. O PSDB vive, desde a fundação em 1988, a sua pior crise. Aliás, como partido político, nasceu às avessas. Sua origem é uma defecção do PMDB. Sob a bandeira do parlamentarismo e da ética, um grupo de políticos liderados por Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, José Richa e próprio Serra, entre outros, abandonou a velha sigla para buscar abrigo numa legenda cujo arcabouço ideológico era a social democracia. O que se viu foi um reduto de caciques, de intelectuais, de lideranças sem liderados. À época, o eufemismo era que havia muitos caciques e poucos índios.
A sobrevida deu-se no período entre 1994 a 2002, a era FHC. Desde então, o partido amargou três derrotas consecutivas na disputa pela Presidência da República e viu sua bancada encolher no Congresso Nacional. Nas eleições de 2014, corre o risco de, em caso de disputa no segundo turno, ficar de fora. A ausência de uma liderança abriu espaço para que o senador mineiro Aécio Neves impusesse seu nome como candidato. O resultado, de acordo com as pesquisas, é o pior possível. Aécio patina e não empolga os eleitores. A adesão da neossocialista, Marina Silva, a candidatura de Eduardo Campos afundou ainda mais suas pretensões.
Não só o PSDB, mas a oposição no Brasil padece do mesmo dilema: falta de projetos, de propostas que empolguem o eleitor. Os resultados na economia, as conquistas sociais e a sensível melhoria na qualidade de vida de milhões de brasileiros que sentiam excluídos fortaleceu os governos petistas. Sem dúvida que ainda há muito que fazer, principalmente em relação às áreas de saúde, educação, segurança pública, no reaparelhamento dos serviços de infraestrutura, entre tantas outras. E isso não é pouca coisa. Se há um calcanhar de Aquiles no governo, seguramente está incluído nesses setores. Não obstante, a oposição não teve competência para apresentar um projeto de governo alternativo. Perde-se em mesquinharias, num discurso miúdo, populista e sem qualquer conteúdo.
O PT não é imbatível nas urnas. Aliás, não existe essa mitologia na política. O partido, no governo, simplesmente fez o que tinha de ser feito. A oposição por sua vez insiste em repetir uma retórica carcomida pelo tempo. Não consegue entender que bovarismo e complexo de vira-lata são a mesma coisa. A diferença é que o povão precisa de coisas simples, diretas e conclusivas.

RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba



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