Borges e a Internet
Borges escreveu em Ficções um célebre conto: A biblioteca de Babel. Nele imaginou um mundo que era uma biblioteca infinita. Numa cornucópia que se estendia em todas as direções, galerias sucessivas abrigavam todos os livros possíveis, com todas as combinações imagináveis de letras. Desde um livro que consistia da letra a repetida da primeira a última linha, até um outro com z a zumbir em todas as folhas.
O problema é que todas as mentiras e todas as verdades ali estavam impressas. Os pobres leitores da biblioteca infinita não podiam distinguir entre o que representava algo correto ou o que fosse a mais deslavada falsidade. Sequer o que era certo, mas guardava às folhas tantas um erro fundamental. Como loucos os habitantes vagavam pelas galerias criando religiões e fanatismos. Uns punham-se a jogar os livros pelos parapeitos, o que pouco alterou as coisas na infinitude de lombadas. Outros procuravam um códice secreto que lhes indicasse onde estavam os livros verdadeiros.
Não é preciso muito esforço para perceber que a ficção borgiana se encaixa à perfeição na Internet que criamos. Bilhões de páginas foram lançadas e seu número cresce sem parar. Nenhum ser humano pode ambicionar sequer ver, ao longo de sua existência, as páginas iniciais de cada site já concebido. Infinidades de mentiras e invenções mirabolantes convivem com as mais sérias pesquisas.
Problema novo, questão inaudita? De modo algum. Raríssimos seres humanos lêem em suas vidas um livro por semana, 2.500 em uma existência normal. As maiores bibliotecas do mundo têm milhões de exemplares, a maior parte não vale a pena ser folheada. O que sempre se necessitou foram de guias, gente capaz de dizer num relance o que vale a pena ser lido ou não, que acumulou esta experiência pesquisando e escolhendo. Editores, selecionadores, foi sempre assim desde que o conhecimento se acumulou. Os mestres ficaram imprescindíveis. Observando a Internet, Borges não precisaria de sua biblioteca, mas o problema continuaria, quem sabe onde está a informação confiável? Os editores dos portais terão a sua tarefa cada vez mais valorizada. No mar de letras infinito apenas uma pequena parte é ouro puro.
- PETRUCIO CHALEGRE é diretor da Chalegre Consultoria





