Bons ares de dezembro
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2002
Walmor Macarini 
Dezembro tem o dom de nos induzir ao desarmamento das tensões e à reflexão, e se isso acontece é porque reside em cada um o anseio da paz, da harmonia e do bem viver. Mas o homem reluta um pouco em revelar esse seu estado emocional, parecendo envergonhar-se de ser cordato e afável, como se isso fosse uma demonstração de fraqueza ante certo conceito de que, para vencer na vida, precisa ser durão. A escola tradicional ensina que, no mundo globalizado de hoje, é preciso competir, uma expressão que se antepõe a outra mais sábia, que é partilhar.
No campo dos negócios é onde mais se fala em concorrência. Quem produz ou vende a mesma mercadoria ou presta serviço idêntico, opera com a mesma clientela, portanto no mesmo círculo que deveria ser de plena união de todos, pois engloba um grupo de semelhantes. Onde certos estabelecimentos iguais se concentram, ali vira o ponto dos fregueses afins, e todos ganham. Sinal de que concorrentes não existem.
Felizmente, novas gerações de empresários e profissionais começam a pensar diferente e vão afastando as práticas da competição, porque a vida não é um combate, embora as próprias famílias e as escolas ainda incutam tal idéia nas crianças. Ante o pretexto de prepará-las para a vida, evidenciam que vencer é superar os outros, quando não há que superar ninguém mas cada qual superar-se a si próprio. Essa superação significa a compreensão de que é melhor partilhar conhecimentos e experiências do que concorrer. A competição é agressiva e estressante e semeia discórdia e mal-estar, enquanto o partilhamento é salutar e gera relações de amizade e alegria.
Não há quem resista a um gesto de boa vizinhança, porque a pessoa, por mais rude que aparente ser, guarda em si sentimentos que só não se manifestam porque ela nunca encontrou quem a estimulasse a isso. Há pessoas que não crêem que alguém possa ser delicado com elas e depositar-lhes confiança ou beneficiá-las de alguma forma, mas se acontece, ficam radiantes e são capazes de mudanças, e para melhor.
Cada qual pode melhorar-se sozinho, mas às vezes uma palavra e um movimento que venham de fora operam milagres, e assim pessoas aparentemente más se revelam boas e surpreendem-se consigo mesmas, por isso.
Uma boa religião é o culto a essa integração incondicional com as pessoas e o partilhamento sincero que no início começa tímido mas depois fica natural e se transforma em hábito. O amor, de que tanto se fala, é isto.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


