Bombas contra a democracia
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de setembro de 1998
Joel Samways Neto 
No tempo do regime militar, no tempo do arbítrio, a censura que assolava a imprensa não deixava os brasileiros saber como estava, exatamente, a situação nacional. No início dos anos 70, nós, estudantes de 1º ou 2º graus achávamos que estava tudo normal. O Brasil era tricampeão mundial de futebol e isso nos enchia de orgulho. Não obstante, um amigo, aluno de escola militar, costumava dizer que havia terrorismo, sim, no País. Dizia que havia resistência guerrilheira, urbana e rural, inclusive com atentados à bomba, sequestros à mão armada etc. Perguntava se não percebíamos a ideologia de esquerda de músicas como Apesar de você, do Chico Buarque, ou Pra não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré. Mas os meninos não atinavam nada.
A história dos pós-64 nos veio com o tempo. Os excessos cometidos, de lado a lado, o sangue derramado, a violência, tudo. Acontece que era um regime de exceção. Quem estava no poder não queria largá-lo assim de qualquer jeito, para qualquer um. Quem estava sendo oprimido pelos gerentes do poder queria derrubá-los. Até o final desse período, no governo do general-presidente João Figueiredo, os alunos do NPOR de Infantaria do 20º BIB aprendiam a estourar aparelhos (grupamentos clandestinos de ação política comunista). Era bomba contra bomba.
A fase dos vinte anos bicudos passou, todos os contendores foram anistiados, os exilados voltaram, os cassados e as famílias dos mortos foram indenizados. Vivemos, daí, o chamado regime de abertura democrática; depois o da transição. Não há mais censura oficial, os partidos políticos podem se organizar a atuar, livremente. Há cerca de treze anos temos tido eleições diretas em todos os níveis de governo. Os gerentes de Poder Executivo e os legisladores federais, estaduais e municipais, são escolhidos através de eleições livres e democráticas.
Neste clima político, com plenas garantias ao exercício da liberdade de expressão, de crítica, com o jogo eleitoral de persuasão sendo jogado de maneira aberta, parece impossível pensar em atos de terrorismo. Terrorismo contra quem? Quem é o ditador? Quem são os tiranos? Qual grupo estaria ocupando o poder ilegitimamente?
Essas perguntas têm lugar, agora, quando no Paraná temos observado os atentados, e as tentativas de atentado, por meio de explosivos, contra as torres de Furnas, condutoras de energia elétrica.
Ora, ora. Se vivemos num regime de democracia plena (ou processualmente plena) e essas bombas se dirigem contra autoridades constituídas, a conclusão elementar é de que o que elas querem explodir é a democracia. Porque essa conversa fiada de que os governos são ruins, são elitistas, são isso, são aquilo, não justifica. Os governos foram eleitos pelo povo. Se o povo escolheu mal, se as políticas públicas adotadas são precárias, cabe aos opositores se organizar em partidos políticos e vir argumentar junto ao eleitorado.
A época atual é de diálogo e de convencimento. Os opositores à gerência da hora precisam afiar o discurso e tentar convencer os eleitores de que suas idéias são as melhores. Se os eleitores dos partidos de oposição alcançam cerca de 25% do eleitorado - e param por aí - o processo de esclarecimento deve continuar, democraticamente. Ninguém da oposição organizada, em sã consciência, proporia bombarderar legitimidades democráticas. É óbvio. Todavia, alguém da oposição desorganizada e xiita talvez não pense o mesmo.
As bombas de Furnas se prestam a quê? Alguns aventam a hipótese de ser uma ação radical de oposição às privatizações do sistema. Se for isso, então as bombas estão sendo lançadas contra a maioria dos eleitores, porque as privatizações eram promessas de campanha do presidente Fernando Henrique, que venceu as eleições já no primeiro turno, em 94.
As bombas se prestam a demonstrar a fragilidade da democracia brasileira, às portas das eleições deste ano, com os atuais governantes em alta cotação para serem reeleitos? É outra hipótese. Sejam lá quais forem as causas desses atentados, as vítimas são, em particular, os cidadãos usuários de energia elétrica que por pouco não se submeteram a racionamento. Em geral, as vítimas somos todos nós que preferimos viver num regime de democracia, pacificamente, porém estamos às voltas com iminentes instabilizações à ordem interna nacional.


