Quando se luta apenas visando à obtenção de riquezas ou à expansão de territórios, a reação natural da comunidade internacional é de repúdio, mas, quando se luta por paz e liberdade, a causa ganha simpatizantes e defensores em todo o mundo. Exemplo disso é o apoio à resistência do povo do Timor Leste contra a ocupação e a repressão.
Depois de mais de vinte anos e milhares de mortos, parece que o bom senso começa a ser levado em direção à ex-colônia portuguesa localizada na Oceania, de apenas quinze mil quilômetros quadrados. O Timor Leste foi transformado, pela força das armas, em província indonésia sob as ordens do então presidente Hagi Suharto, dono dos destinos do país durante 32 anos.
Suharto renunciou no ano passado, depois de uma onda de protestos da população, que exigia reformas políticas e econômicas. Em seu lugar, assumiu o vice, Bacharuddin Jusuf Habibie, mais moderado e propenso ao diálogo que seu antecessor, mentor de um governo corrupto que beneficiava, acima de tudo, sua própria família.
Cerca de duzentas mil pessoas morreram nas lutas entre a resistência timorense e o Exército indonésio. A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou a anexação e determinou a realização de um referendo no qual a população local escolheria seu futuro. Mas o governo da Indonésia, entenda-se Suharto, fez vistas grossas e manteve a repressão. Apesar de a ONU e Portugal, principalmente, defenderem os interesses dos timorenses, sabia-se que, enquanto o presidente-ditador estivesse no poder, seria praticamente impossível a desocupação pacífica do Timor Leste.
Os primeiros sinais de esperança surgiram com o anúncio, pelo ministro da Informação indonésio, de que seu país admitia a hipótese de libertar o Timor Leste, por meio da concessão de maior autonomia ou da independência total, decidida em plebiscito entre os timorenses.
Em seguida, veio a informação de que Xanana Gusmão, líder separatista timorense, condenado a vinte anos de prisão em 1993, será libertado na sexta-feira, dia 12. Xanana, a exemplo de Nelson Mandela - presidente da África do Sul que passou 27 anos na cadeia por sua luta contra o apartheid -, tornou-se o símbolo da resistência de seu povo.
O conflito iniciado em 1975 - quando Suharto mandou invadir a ilha e anexá-la no ano seguinte - tem outros personagens conhecidos, como o bispo católico de Dili, capital do Timor, Carlos Ximenes Belo, e José Ramos-Horta, porta-voz da resistência internacional que vive exilado em Lisboa, ganhadores do Prêmio Nobel da Paz de 1996.
Acostumados a desconfiar de Suharto, os habitantes da ilha, uma das 17,5 mil que formam a Indonésia, vêem com cautela a mudança de postura anunciada pelo governo de Habibie. Mas, agora, pela primeira vez, parece que podem ser levadas a sério as promessas dos dirigentes indonésios em relação a uma saída pacífica destinada a pôr fim à repressão e aos confrontos armados no Timor Leste.
- CLÁUDIO CAXITO é jornalista em Brasília

mockup