Bom para poucos - Hélio Doyle
Hélio Doyle
A economia vai bem, mas o povo vai mal. O então presidente Emílio Garrastazu Médici reconheceu isso nos tempos do chamado milagre econômico brasileiro. O País crescia, a bolsa de valores estava sempre em alta, a classe média tinha mais poder aquisitivo. A maioria da população, porém, continuava vivendo na miséria e na pobreza.
A economia norte-americana vai muito bem. Vem crescendo há mais de oito anos (5% em 1999), a taxa de desemprego é a menor em 30 anos (4,1%). Mas a desigualdade social está aumentando, e mais norte-americanos estão vivendo na pobreza. Cresce a diferença entre os mais ricos, cada vez mais ricos e os mais pobres, cada vez mais pobres.
Essa é a lógica do sistema econômico que se pretende seja universal e que só sobrevive se houver desigualdade. Extrema desigualdade entre os países ricos e os países pobres e, em cada país, entre os homens e mulheres ricos e os homens e mulheres pobres.
A questão é que a riqueza produzida por todos é apropriada por poucos. Até aí, nada de mais, pois no capitalismo é assim. Mas, no capitalismo, essa desigualdade pode ser compensada pelo Estado, por meio de mecanismos sociais como uma legislação que proteja o trabalhador da superexploração e garanta seus direitos, uma rede eficiente de assistência médica, escolas públicas, alimentos e moradia subsidiados, seguro-desemprego, previdência social...
Também nas relações entre os países podem existir mecanismos compensatórios para reduzir as diferenças entre as nações ricas e as pobres. Mecanismos que regulem as relações financeiras, econômicas e comerciais levando em consideração a desigualdade entre os países ricos e os pobres.
Para que tudo exista, porém, é preciso que haja vontade de reduzir as diferenças entre as nações e entre as pessoas. Vontade que não existe nos defensores do neoliberalismo. Pelo contrário. A lógica dos neoliberais é cada um por si e que vençam os melhores. O Estado deve ser desmantelado em favor do mercado. O poder de decisão no mundo deve estar nas mãos dos países ricos, e não da ONU. Uma ode à seleção natural da espécie.
Tem razão o embaixador brasileiro Rubens Ricúpero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), ao propor a busca de um novo paradigma para o desenvolvimento e para a economia global.
O que existe hoje, baseado no Congresso de Washington e nas políticas dos organismos financeiros internacionais que significam desnacionalização, recessão, desmonte do Estado, desregulamentação e desemprego já mostrou que só é bom para quem está por cima. Exclui dos benefícios da globalização mais da metade da população do mundo.
O Brasil poderia ter um papel importante na busca desse novo paradigma. Estar mais para Unctad que para FMI.





