Bom para o governo, mas não tanto
Não necessariamente pela escolha de Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e sim pelo fim das especulações nessa disputa, a eleição do novo presidente da Câmara Federal tem o mérito de propiciar a retomada dos trabalhos parlamentares, praticamente paralisados desde que o deputado Roberto Jefferson abriu a temporada de denúncias sobre os mensalões. Afastada a presença destoante e pouco respeitada de Severino Cavalcanti na presidência da Casa, há indicativos de que, não obstante a possibilidade de mais cassações e de resistências, os projetos de lei e as esperadas reformas voltem à pauta das discussões. A definição pelo parlamentar paulista que venceu o concorrente alagoano por pequena margem de votos é do agrado do presidente Lula, porque Rebelo é muito identificado com o Governo petista, mas essa apertada vantagem significa que há contrários, que poderão não deixar fáceis as coisas para o Palácio do Planalto. Os críticos de Aldo Rebelo afirmam que poderá ocorrer uma tendência de imposição do Poder Executivo sobre a Câmara, e isso os adversários não irão permitir. Rebelo reage, declarando que o Parlamento é ''um espaço independente''. E já informou que colocará imediatamente em pauta a discussão da reforma eleitoral. De sua vez, e agora navegando em águas um pouco mais serenas justamente pela escolha do velho aliado o ministro Antonio Palocci já diligencia para que a reforma tributária, parada no Congresso desde 2003, seja aprovada ainda neste ano. Para isso está se entendendo com os prefeitos, que reivindicam o aumento de ao menos 1 ponto porcentual no repasse do Fundo de Participação dos Municípios. Com o desfecho da eleição na Câmara, ocorre um certo alívio, depois de tanta perda de tempo com as tomadas de depoimentos das CPIs que ainda não concluíram seu trabalho e que centralizaram as atenções da comunidade parlamentar. Embora a recorrência ao velho expediente de liberar recursos financeiros para obter votos dos parlamentares no caso presente e nas ocasiões em que interessou a aprovação de propostas governamentais verbas oriundas de emendas orçamentárias têm destino específico, não iguais aos ''mensalões'', que iam diretamente para o bolso de deputados. Os recursos para as emendas, já previstos em R$ 500 milhões iniciais, agora têm outro nome, mas o regime é o mesmo. Sem abrir o cofre, o Governo pouco obtém. Um Parlamento independente pode também ser harmônico com o Poder Executivo e operar inteligentemente pela causa das reformas que a nação reclama, mas geralmente não é isso que acontece. A situação, com a eleição de Rebelo, é certamente melhor para o Governo, mas quem não for contemplado irá reagir. E os potenciais concorrentes à Presidência não irão pavimentar a via para a reeleição de Lula. O Governo Lula precisará de bons negociadores, que não deverão ser do estilo que vigorou até a explosão do escândalo que todos conhecem. Certo é que a solução sem traumas, da questão da presidência da Câmara dos Deputados, encerra um importante capítulo do drama político vivido em Brasília. É, ao menos, a eliminação de um entrave.





