A crise que nas últimas semanas abateu as bolsas de valores em todo o mundo, como consequência da queda da Bolsa de Valores de Hong Kong, remete a algumas reflexões sobre a globalização e seus reflexos no mercado brasileiro. Em meio a uma assustadora queda de 14,90% que se registrou na Bolsa de São Paulo na segunda-feira e da volatividade que se seguiu, foi comum se ouvir de analistas que o efeito é uma consequência inevitável da globalização.
Mas será que existe algum fundamento econômico aqui no Brasil ou nos Estados Unidos que justificasse a contaminação de forma tão feroz por este pânico mundial, por este clima histérico, nervoso e emocional? Me parece que não.
Analisemos o caso do Brasil e os motivos que levaram a esta derrocada. As ações estão caras? Não. Há más perspectivas em relação a nossas principais ações? Não. Pelo contrário: vivemos um clima positivo, com um programa veloz de privatizações; as empresas que já foram ou estão sendo privatizadas vão ter fatias de um mercado extremamente promissor em crescimento e desenvolvimento. se as ações de alguns mercados mundiais estavam com preços muito altos, ensejando uma realização de lucro, este não é de forma geral o nosso caso. Dentro do contexto, nossas ações não estão caras.
Os fundamentos básicos não mudaram. Mas o que aconteceu? Mudou a percepção dos agentes de mercado, por uma reação puramente nervosa. É como se alguém se deixasse influenciar pelo que aconteceu na casa de um parente longínquo e não mais pela sua própria realidade.
O que se nota é que a globalização traz um acessório que nem sempre é positivo: a comunicação instantânea e o excesso de informação. Eu uso a palavra ‘‘excesso’’ porque a informação além de um determinado nível é igual remédio, começa a fazer mal. Hoje o mundo inteiro está ligado em redes de computadores, agências de notícias, notícias em tempo real. No momento em que surge o pânico em um determinado mercado, ninguém pára para pensar se as questões que fudamentaram esta determinada crise têm alguma coisa em comum com sua própria realidade. seria como dizer o seguinte: como existe a tempestade em outro ponto do mundo, vou fechar a minha casa, trancar janelas, recolher o cachorro porque a tormenta fatalmente virá para cá.
Em resumo: o efeito da crise sobre o Brasil não tem nada a ver e tem tudo a ver. Nada a ver pela análise fundamentalista, que não encontra pontos em comum entre o mercado brasileiro e os motivos que originam as quedas em Hong Kong, Mas tudo a ver porque estamos interligado com o restante do mundo, porque nossas bolsas abrigam investidores e operadores internacionais.
Por quê entramos em queda? Por nervosismo. Quando se tem uma queda muito grande em determinada região, ela se alastra porque desencadeia o seguinte raciocínio: ‘‘se o investidor está perdendo dinheiro em Hong Kong, ele provavelmente vai vender suas ações no Brasil, onde está tendo lucro, para equilibrar as suas contas. Então eu vou sair na frente e vender antes’’. É a chamada profecia auto-realizável. Isso se viu com clareza na crise do México, em 1994. Fomos nós, os investidores nacionais, com medo que os estrangeiros entrassem vendendo em massa e a porta ficasse pequena para todo mundo sair, que nos antecipamos e causamos nossa própria tragédia. Hoje estou convencido de que os efeitos aqui em decorrência da crise no México teriam sido desprezíveis se os investidores brasileiros não tivessem entrado em pânico.
As bolsas podem criar formas de defesa, como o circuit breaker e bloqueio de pregão mas é muito difícil se criar mecanismos para fatores que têm origem no ser humano. Se o meu pânico persiste, mesmo o circuit breaker tirando a bolsa do ar por algum tempo, não resultará efeito positivo. O que é mais eficiente para diminuir este tipo de crise é o amadurecimento dos investidores e dos vários agentes de mercado. Crises globalizadas estão se tornando mais e mais frequentes, precisamos aprender e conviver com elas sem sobressaltos. São como as tempestades de verão: muito intensas, mas pouco duradouras.

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