As bolsas de estudo - através dos programas de governo ou por incentivo das universidades parecem ser a saída para os alunos de baixa renda que desejam cursar o ensino superior Mas nem sempre são sinônimo de sonho realizado
Jaqueline Kalmus é psicóloga e professora universitária e em sua tese de doutorado - ''Ilusão, resignação e resistência: marcas da inclusão marginal de estudantes das classes subalternas na rede de ensino superior privada''- analisa os fatores responsáveis pelas dificuldades enfrentadas por universitários carentes no ensino superior
Falta de conteúdo para acompanhar a turma e dificuldades financeiras - já que a bolsa não cobre outros gastos como material e transporte, por exemplo -, são fatores que podem fazer com que o aluno desista do curso ''Como exigir tamanho sacrifício financeiro da família se o aluno não está obtendo sucesso em seus estudos?'', questiona
Qual a maior dificuldade do aluno oriundo das classes mais baixas quando ingressa em uma universidade particular? A questão financeira ou o conteúdo?
As duas dificuldades podem ocorrer, inclusive simultaneamente Para enfrentar as dificuldades financeiras, muitas vezes o aluno conta com o apoio familiar Esse não é um sacrifício individual, mas que abarca a família como um todo O estudante pode ainda deparar com dificuldades de conteúdo se frequentou uma educação básica que não lhe proporcionou os pré-requisitos necessários para o ingresso na universidade
Podemos dizer que uma das diferenças das dificuldades de conteúdo em relação às dificuldades financeiras é que talvez as de conteúdo sejam inesperadas porque, afinal de contas, ele passou pela escola e por uma prova de seleção, o que, ao menos aparentemente, seria a garantia de que ele pudesse cursar a universidade Muitas vezes, a interrupção nos estudos é causada pela somatória das duas dificuldades E como exigir tamanho sacrifício financeiro da família se o aluno não está obtendo sucesso em seus estudos?
Se o aluno ingressa em uma universidade pública, os desafios são menores? Há maior aceitação por parte dos colegas?
Em minha pesquisa investiguei apenas a avaliação que os alunos das universidades privadas fazem de sua passagem pelo ensino superior Isso porque este foi o segmento com maior crescimento desde a década de 1990: a expansão do ensino superior e a absorção de estudantes mais pobres se dão, sobretudo, no setor privado Não acho que poderíamos quantificar esses desafios em ''maiores'' ou ''menores''; certamente eles guardam tanto semelhanças como particularidades
Com relação à aceitação por colegas, também temos que fazer distinções com relação aos cursos que esses alunos frequentam, seja em universidades públicas seja em universidades privadas; há cursos com caráter mais elitista, em que os estudantes das camadas populares são raros; há outros que concentram um número maior de estudantes oriundos das camadas populares®MDBO ®MDNM
A senhora acredita que o Programa Universidade para Todos (ProUni) é suficiente para garantir a permanência de estudantes de baixa renda nas universidades?
Por um lado, o ProUni possui um caráter democratizante, já que é a primeira política pública de largo alcance para a inserção de alunos das classes populares na educação superior privada - isso juntamente com a ampliação das universidades federais
Por outro lado, o ProUni tem também um caráter de compensação financeira das empresas educacionais, interrompendo ou diminuindo as perdas que o setor vem experimentado Mas, se o ProUni abre as portas da universidade para muitos estudantes pobres, ele não é a garantia da permanência, já que as dificuldades que os alunos enfrentam são de diversas ordens Além disso, sempre devemos perguntar qual é o tipo de formação a que esses alunos passam a ter acesso
O que precisa ser feito para que essa situação mude?
Há que se tomar o cuidado para ''não jogarmos o bebê com a água do banho'' A ampliação do acesso ao ensino superior para as camadas populares é uma luta histórica Os estudantes de minha pesquisa - que tinham outras formas de bolsas de estudos que não o ProUni - foram unânimes em apontar os benefícios da vida universitária, mesmo quando a interromperam precocemente ou quando, depois de diplomados, não conseguiram emprego em sua área de formação Mas a luta pela educação não é só pelo acesso; é preciso garantir a verdadeira formação dos estudantes, não só na faculdade como no ensino básico
Segundo seu estudo, essas pessoas buscam também respeito quando ingressam na universidade e justamente isso é, muitas vezes, negado Qual o impacto disso na autoestima?
As situações de humilhação fazem parte da vida do estudante, de seus familiares e de seu grupo social Como diz um dos estudantes: ''É como se você tivesse um espinho cravado no pé Sempre'' Então é essa dor que permeia a vida que eles procuram compreender e enfrentar; e procuram fazer do ensino superior um aliado nesse enfrentamento
O fato desses alunos receberem bolsa de estudo atrapalha em algum momento?
Historicamente, no Brasil, concebe-se educação como favor ou como mercadoria, não como direito Mercadoria ou favor são dois lados da mesma moeda: se, por exemplo, a bolsa de estudos é compreendida como favor, ela não é garantia da educação, pois, como ''privilégio'', pode ser suprimida a qualquer instante - por exemplo, se os alunos não obtêm notas satisfatórias ou não aceitam as regras - e, muitas vezes requerem uma ''moeda de troca'' com a qual os alunos nem sempre podem arcar É essa a lógica embutida na ''acusação'' de que o aluno ''está recebendo tudo de graça'' Ao mesmo tempo, quando um aluno afirma que ''merece uma boa educação porque está pagando'', ele está afirmando, ao mesmo tempo, que ''quem não paga não merece uma boa educação'' Nos dois casos, retiramos a educação dos campos do direito A luta por uma educação democrática e de qualidade requer o urgente resgate da educação como um direito

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