Bolsa Família estimula o ócio
O Ministério do Desenvolvimento Social divulgou sexta-feira um estudo que confere veracidade às reclamações sobre falta de mão de obra para serviços gerais sem complexidade. Quem reclama, em primeiro lugar, é o comércio cujas atividades e relações do trabalho são regidas por uma legislação trabalhista - rigorosa - e ninguém pode alegar exploração. Pode haver injustiça com relação aos salários, mas não sobre ilegalidade na contratação, jornada de trabalho, etc. A escassez de trabalhadores - na verdade o desinteresse pelo trabalho -, vem sendo atribuída aos programas sociais do governo, que estimulam o ócio. Só que a constatação era aleatória, sem base em pesquisa.
Mas agora quem diz é estudo do próprio governo. E é bom que fique claro que os mais prejudicados com essa cultura de desapreço ao emprego são os próprios trabalhadores. No futuro poderão formar uma nova geração: os sem-profissão. Mas o que diz o estudo? Diz que os beneficiários do Bolsa Família passam menos tempo no emprego e, quando o perdem, demoram mais para encontrar nova vaga com carteira assinada. A pesquisa é numa indicação de que será longo e complicado o caminho para que os beneficiários da transferência de renda do governo abram mão dos pagamentos mensais do Bolsa Família e encontrem a chamada porta de saída do programa.
As primeiras sondagens sobre a relação do público do Bolsa Família com o mercado de trabalho feitas após sete anos de vida do programa mostram que a maioria dos empregos não tem registro em carteira. Entre os beneficiários ocupados, 75,2% não têm cobertura da Previdência Social, calcula o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na população economicamente ativa do País, o porcentual é de 49,8%.
Na entrevista a repórter Marta Salomon, o coordenador do estudo Alexandre Leichsenring, resume: A inserção dos beneficiários do Bolsa Família no mercado formal, quando existe, é bastante precária. Menos de um ano depois da contratação, metade dos beneficiários é desligada, 30% perderão seus empregos em menos de seis meses. Fora do mercado de trabalho, menos de 25% são recontratados nos quatro anos seguintes. Leichsenring é doutor em estatística e consultor do Ministério do Desenvolvimento Social.





