Bolsa-família acomodando as pessoas
O padre Haruo Sassaki está estreitamente ligado a São Jerônimo da Serra, pois administra ali há 30 anos a Associação Filantrópica Humanitas, que cuida especialmente de hansenianos. Sua influência no município sempre foi maior que a dos prefeitos, e estes têm realizado pouquíssimas obras e serviços, as ruas são cheias de irregularidades, a cidade é feia e só melhora um pouco o visual na área central.
O murmúrio do povo é de que a corrupção é imperante, desde sempre. Padre Sassaki tem autoridade e conhecimento para afirmar que o Bolsa-Família está acomodando as pessoas ali. A cooperativa da Humanitas precisa de 20 costureiras e não as encontra, porque elas chegam, perguntam logo quanto vão ganhar, mas sem um valor concreto, desistem, pois estão respaldadas pelo Bolsa-Família. Os 898 índios caingangues, compondo 241 famílias, já não querem tocar as roças, conforme a revelação do sacerdote ao repórter deste Jornal Widson Schwartz.
O jornalista constata o óbvio: que as casas da periferia são miseráveis, porque não é possível fazer investimento com a minguada renda do Bolsa-Família. Significando que a miséria continua. Este é o primeiro caso tornado público de que esse programa assistencial do Governo Lula está acomodando as pessoas, embora disso já se suspeitasse.
Se tal acontece em São Jerônimo da Serra, acontece em todo o Brasil. Mas o programa é necessário, depois que se permitiu que o Brasil chegasse a tão alto grau de miserabilidade - e não apenas a miséria social mas também a de mentalidade. Não se pode exigir conscientização de todos os beneficiados por esse programa de ajuda, ou seja, que busquem um emprego paralelo, até porque nem todos o encontram, mas há os preguiçosos e acomodados.
Os números mostram que são 11,1 milhões das famílias (ou 45 milhões de indivíduos) hoje favorecidos pelo Bolsa-Família no Brasil, representando uma considerável transferência de renda. Onde essas cotas chegam provocam dinamização da economia de cada localidade. Um detalhe, que deve servir de referência: em São Jerônimo são 1.352 famílias beneficiadas, mas existem 1.166 (quase o dobro) aguardando vez, porque há um limite por município. Um contra-senso, porque se há pobres, o Bolsa-Família terá de contemplá-los, pois o programa foi implantado com essa finalidade. Não há dúvida de que vigora aí uma injustiça.
Dinheiro em caixa é que não falta no governo federal, e as somas são fabulosas, guardadas no Tesouro para ''fazer estoque'. Essa duplicidade de pobres em São Jerônimo está demonstrando também que, em extensão nacional, o número de carentes é maior do que a estatística oficial tem mostrado.





