BOLA DE CRISTAL - Segunda graduação é como andar em cadeira de balanço
Antes do final da adolescência, os brasileiros são obrigados a tomar uma decisão que afeta decisivamente o resto de suas vidas. A escolha do curso superior é feita, normalmente, quando os jovens têm de 16 a 18 anos. E nessa idade muitos não estão preparados para fazer a opção mais adequada. Uma das consequências é o alto número de universitários que buscam uma segunda graduação.
Para o especialista em educação Antonio Freitas, pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-graduação e diretor de Integração Acadêmica da Fundação Getúlio Vargas (FGV), optar por um novo curso, independentemente da conclusão ou não do primeiro, é como "andar em cadeira de balanço". Ele aponta que o ideal é que o profissional busque se aprofundar em sua área de conhecimento.
"O aluno está perdendo tempo e gastando dinheiro, mesmo que esteja em uma universidade pública. O ideal é que ele siga uma carreira, até faça uma pós-graduação, para se aprofundar, mas siga a carreira dele. Fazer uma segunda graduação significa ficar no mesmo nível", avalia.
Freitas reivindica ainda que o governo aumente o investimento em educação básica, priorizando a capacitação e a melhoria dos salários dos professores.
Onze por cento dos
universitários brasileiros estão em uma segunda graduação. O que explica esse fenômeno? A necessidade de escolha precoce da carreira é um fator
determinante?
Em muitos países os cursos de graduação são generalistas. Então, o estudante passa dois anos fortalecendo a base acadêmica. Aí nos dois últimos anos escolhe uma carreira, como Administração, Engenharia. Normalmente o aluno completa a graduação com um mestrado. Essa é a regra geral. Em algumas carreiras, como Veterinária e Odontologia, o aluno faz isso com a pós-graduação.
Em outros países, os estudantes fazem um curso de "pré-Medicina" ou "pré-Direito" e só depois fazem o curso especificamente. Portanto, essa escolha precoce de carreira, com 17 anos, que a universidade obriga, é negativa porque muitos alunos quando entram na escola descobrem que o curso não é bem aquilo que eles queriam. Ou escolhem algum curso para o qual o mercado não é positivo. Então não é incomum um aluno mudar de curso, como não é incomum fazer uma segunda graduação.
A escolha errada de curso acarreta prejuízo para o próprio estudante e para o País. É possível avaliar a extensão desse "dano"?
O estudante, na maioria das vezes, perde aquele entusiasmo inicial. E quando se perde o entusiasmo inicial é muito negativo, porque as coisas são movidas pelo entusiasmo. E a nação investiu, de forma direta ou indireta, na formação do aluno.
Para se ter uma ideia, na universidade pública, um aluno custa em média mais de R$ 2 mil por mês. No caso de um estudante que abandonou o curso após dois anos, por exemplo, são cerca de R$ 50 mil. Se são milhares de estudantes nessa situação, realmente o valor resultante será bastante alto. É um valor desperdiçado.
Aí a pergunta é: por que se obriga o estudante a escolher precocemente a escola? Porque é mais conveniente. Para o aluno, o ideal seria entrar na universidade, fazer uma parte básica do curso e só depois escolher o curso específico.
Esse sistema já funciona em países de Primeiro Mundo com sucesso. Por que não é implantado no Brasil?
Por falta de vontade política. Não há dificuldade em se implantar esse sistema. A graduação superior seria em Matemática, em Ciências, em Língua Portuguesa. Todas essas matérias já estão dentro das universidades. Então só falta vontade política.
A faculdade também deveria orientar o aluno. O aluno teria contato com as áreas que interessam a ele para poder fazer uma escolha mais apropriada. E dessa forma diminuir o problema da escolha precoce. O que acontece também é que muita gente se forma e depois faz uma pós-graduação ou um MBA no sentido de se adequar aos interesses dele.
Não seria melhor se o aluno direcionasse suas escolhas no próprio Ensino Médio, escolhendo quais disciplinas quer cursar, como ocorre em outros países?
A escolha das disciplinas poderia e deveria começar no Ensino Médio. Não só pela importância da escolha da carreira, mas por conta da disciplina de estudo. O aluno já passaria a entender que a universidade é um campo de treinamento. Em uma boa universidade o aluno é pressionado. Aquilo faz parte do treinamento dele. Se na escola ele não tiver nenhum desafio, isso é muito ruim. Ele não vai estar se preparando para a vida, que é o mais importante.
Uma segunda graduação não é necessariamente ruim, uma vez que mostra o interesse que o profissional tem de evoluir na carreira.
Não é necessariamente ruim, mas o estudante poderia usar aquele tempo de forma mais útil para ele próprio e para o País. O aluno está perdendo tempo e gastando dinheiro, mesmo que esteja em uma universidade pública. O ideal é que siga uma carreira, até faça uma pós-graduação, para se aprofundar, mas siga a carreira dele. Fazer uma segunda graduação significa ficar no mesmo nível. É como andar em uma cadeira de balanço.
A qualidade do ensino superior também é um tema relevante nessa discussão. Hoje o governo pune instituições de ensino que não obtêm desempenho satisfatório em avaliações do próprio governo. Esse é o melhor caminho para melhorar a qualidade do ensino superior?
Punir não é o ideal. Antes de punir, tem que ajudar. Só deveria ser punido aquele que resistisse, que não quisesse o auxílio. Às vezes a pessoa não faz melhor porque não sabe fazer. Além do mais o grande problema não é a universidade, mas a educação básica do Brasil, que é 98% pública e de péssima qualidade. Então o aluno mais pobre, que é aquele que mais precisa, não consegue entrar em uma universidade pública.
Antes de se fechar, o governo deveria auxiliar a escola, utilizando as melhores escolas da região para servir de um tutor para aquela escola. Fechar é uma atitude politicamente atraente, mas em um país que precisa de gente estudando é o maior pecado deixar esses jovens fora da escola.
A lei brasileira diz que todas as pessoas têm que ter acesso à educação. Quem autoriza a escola a funcionar? É o governo. Então por que antes de fechar a escola o governo não orienta a escola? O que vai acontecer é que daqui a pouco essas escolas vão abrir de novo. Não vai adiantar nada. E os maiores prejudicados vão ser os alunos e o País.
Por que o governo não consegue melhorar a qualidade da educação, uma vez que especialistas sempre destacam a importância do investimento na remuneração e na capacitação do professor?
Falta vontade política. A remuneração em si não vai resolver tudo. Mas se for dada de forma condizente, se for assemelhada ao que se receberia como administrador, como economista, vai começar a atrair pessoas de mais qualidade para o ensino. Também temos que readequar os professores ao ensino moderno. Hoje em dia o aluno sabe usar o computador melhor do que o professor. O professor que hoje ganha mil e poucos reais, ou até menos, não pode investir em educação. E em cidades muito pobres do Brasil o prefeito ganha R$ 20 mil, o vereador ganha R$ 12 mil.
Em muitos países o vereador não ganha nada. A Câmara Municipal se reúne à noite para discutir as coisas de interesse da sociedade. No Brasil, a política é um emprego e, lamentavelmente, para muitos, um caminho para corrupção. Já em países de Primeiro Mundo o professor é valorizadíssimo. Na Finlândia, por exemplo, uma das profissões mais procuradas é a de professor.
Portanto, temos que investir maciçamente na educação básica. A ideia da presidente Dilma Rousseff de investir o dinheiro do pré-sal na educação é muito importante. Tanto na educação quanto na ciência e tecnologia. Porque, em termos de ciência e tecnologia, o Brasil está ficando para trás.





