Antigamente, quando não eram tão comuns os cursos de natação, os pais costumavam usar uma corda e uma bóia para ensinar seus filhos a nadar. Amarravam uma corda na cintura dos meninos e ficavam aguardando na bóia (de preferência, aquelas bóias grandes, de pneu de caminhão). Lançavam os meninos na água e eles nadavam até onde podiam. Quando ficavam cansados, voltavam para a bóia. À medida que eles iam ganhando segurança, a corda ia aumentando de comprimento até não ser mais necessária. Enquanto esse momento não chegava, a bóia era o porto de salvação dos meninos. Na corrida sucessória, os três partidos governistas estão fazendo parecido com os meninos de antigamente com suas cordas e bóias.
A bóia de salvação dos governistas é um almoço em um restaurante chique de Brasília ou de São Paulo. Participam desse almoço os presidentes dos três partidos da base governista: Jorge Bornhausen, do PFL; José Aníbal, do PSDB, e Michel Temer, do PMDB. Nesse momento da disputa pela sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso, os três meninos estão nadando, cada qual para seu lado. Com a cordinha amarrada na cintura, toda semana eles voltam para a bóia. No almoço, cada um monitora e discute os passos do outro.
O almoço semanal é o sinal de que os partidos, ainda que hoje vislumbrem vôos próprios, querem guardar o mínimo de distância possível uns dos outros. Todo mundo está autorizado a tentar seu próprio caminho, mas monitora de perto o caminho dos outros. Se for preciso, em algum momento aí pela frente, voltam os três a ficar juntos na bóia.
Durante as festas de fim de ano, os três presidentes suspenderam a rotina. Mas voltarão a se encontrar na semana que vem. Dos três meninos, o que tem menos fôlego para nadar sozinho parece ser o PMDB. O governador Itamar Franco já percebeu isso. Tentou voltar para Minas Gerais e disputar a reeleição ao governo do Estado. Encontrou o terreno ocupado por seu vice, Newton Cardoso. No PMDB, a jogada dos governistas é fazer Itamar desistir antes da disputa das prévias. Nesse caso, o partido se declararia sem candidato, anularia as prévias e poderia começar a negociar com os parceiros de bóia. A preferência cada vez mais clara é por Roseana Sarney, do PFL.
É Roseana quem tem a corda mais comprida. O PSDB, com o ministro da Saúde, José Serra, bem pode se afogar pelo caminho. Não seria de todo impossível que Serra viesse a ser puxado de volta para a bóia roxo e quase afogado e o PSDB acabasse também, na última hora, seguindo o caminho de Roseana. Os partidos caminham para ter suas candidaturas próprias, especialmente o PSDB e o PFL. Mas tão cedo não vão desamarrar as cordinhas e abandonar a bóia.
RUDOLFO LAGO é jornalista em Brasília

mockup