É importante reconhecer a lesãosuspeita na sua fase inicial

Ocorrências crescemcom uso regular de enxaguatórios bucais com álcool






Pequenas lesões na boca que não recebem a devida atenção podem se tornar um problema de proporções gigantescas. Nem sempre uma simples ferida é só uma afta. Pode ser câncer bucal. E a demora em reconhecer a lesão e dar início ao tratamento adequado pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

O alerta é do secretário-geral da Academia Internacional de Câncer Bucal Luís Paulo Kowalski, uma das principais autoridades do assunto no Brasil. Ele participa hoje e amanhã do 4º Congresso Sul-Brasileiro de Câncer Bucal e da 4 Jornada de Cirurgia e Traumatismo Buco Maxilo Facial, organizados pelo Hospital Erasto Gaertner, de Curitiba.

Em entrevista à FOLHA, ele explica que atitudes simples, como consumir frutas cítricas, podem ajudar a evitar o problema. ''Ter uma boa alimentação, não fumar, não beber ou beber pouco, cuidar dos dentes e das gengivas é fundamental para a prevenção dessa e de diversas outras doenças'', ensina.

Quais as partes da boca mais atingidas pelo câncer?
A maioria (dos tumores) origina-se nas mucosas, mas podem ser originados abaixo da mucosa, em glândulas salivares, ossos e partes moles. O local mais atingido é o lábio, a língua e o soalho bucal (a parte entre a língua e a gengiva inferior).

O câncer bucal é frequente?
Entre nós sim, com aproximadamente 16 mil novos casos diagnosticados no País anualmente. Ocupa entre a sexta e a oitava posição entre os cânceres. É mais frequente nos homens do que nas mulheres, mas esta diferença tem diminuído. Embora a maioria dos pacientes tenha mais de 50 anos de idade, pessoas mais jovens também podem apresentar a doença. Nos últimos 20 anos tem aumentado a ocorrência de câncer de língua em pessoas com menos de 40 anos de idade.

Quais são as principais causas da doença?
O principal fator de risco é o consumo de tabaco. Outro fator importante é o consumo de bebidas alcoólicas, particularmente de destilados. O consumo combinado de tabaco e de álcool tem efeito sinergístico e pode aumentar o risco em até 140 vezes em relação a quem não fuma e não bebe. Recentemente descreveu-se aumento do risco de câncer de boca em pessoas que utilizam regularmente enxaguatórios bucais contendo álcool. Deficiência em alguns nutrientes como a vitamina A e o baixo consumo de frutas cítricas aumentam o risco. Por outro lado, o consumo regular desses nutrientes pode ser usado na prevenção, pois reduz o risco. Traumas crônicos por próteses também representam risco adicional. Nos últimos anos descreveu-se um aumento de risco entre jovens não tabagistas e não etilistas que apresentem infecção por papiloma vírus humano (HPV).

O câncer bucal tem cura? Qual o índice?
Quanto mais cedo for diagnosticado maiores são as chances de cura. Para tumores superficiais não invasivos a taxa de cura é próxima de 100%. Para tumores invasivos de menos de 2 centímetros de extensão a curabilidade é em torno de 80% a 90%. Essas taxas caem progressivamente de acordo com o tamanho da lesão no momento do diagnóstico. Menos de 20% dos pacientes que têm o diagnóstico firmado em fases avançadas sobreviverá. A maioria dos pacientes que não são tratados falece antes de um ano de evolução. Desse modo, tratar o mais cedo possível é fundamental.

Como é feito o tratamento?
O tratamento pode ser feito tanto com cirurgia quanto com radioterapia. De um modo geral utiliza-se a cirurgia em tumores menores e a associação da cirurgia com radioterapia, e por vezes também com quimioterapia, nos casos mais avançados. A extensão da cirurgia depende do local e do tamanho do tumor. Geralmente é necessário remover o tumor e gânglios do pescoço acometidos pela doença. Algumas vezes é necessário remover parte da mandíbula ou maxila. Sempre faz-se a reconstrução imediata para facilitar a reabilitação do paciente, utilizando-se enxertos, próteses e, se necessário, implantes.

Quais os primeiros sinais da doença?
Geralmente são lesões ulceradas (feridas), mas podem ser manchas vermelhas ou brancas, ou ainda nódulos, que não causam dor no início, mas que crescem progressivamente. Outros sintomas como dor, sangramento ou perdas dentárias ocorrem somente quando o tumor está avançado. É importante reconhecer a lesão suspeita na sua fase inicial. Um ponto importante é a característica de ser geralmente uma lesão única de crescimento progressivo. Quando ulceradas essas lesões geralmente são irregulares, endurecidas e friáveis (fragmentam-se com facilidade).

Os dentistas estão preparados para fazer esse tipo de diagnóstico?
Tanto médicos como dentistas deveriam fazer o diagnóstico desse tipo de câncer facilmente porque ele está exposto, os sinais geralmente são muito claros. No entanto, os pacientes demoram em procurar assistência, e quando o fazem algumas vezes encontram médicos e dentistas que não receberam treinamento para diagnóstico precoce de câncer e, segundo uma experiência do Hospital A. C. Camargo (instituição em São Paulo que é referência no tratamento de câncer), em quase metade dos casos o primeiro profissional não pensa em câncer e prescreve tratamentos ineficazes.

Alguns pacientes passam por vários médicos e dentistas antes de ter o diagnóstico. Por isso é importante alertar não somente a população de risco, mas também os profissionais, mostrando os principais sinais e sintomas da doença inicial. Quando ela é avançada, mesmo quem não é profissional da saúde pode facilmente reconhecê-la, mas aí já pode ser tarde demais.

O Brasil já tem tratamento satisfatório? É oferecido pela rede pública?
Temos profissionais e centros especializados excelentes em serviços terciários multidisciplinares. O problema maior que se enfrenta é que eles não estão distribuídos geograficamente de maneira adequada. Enquanto no Sul e Sudeste há uma rede capaz de atender quase toda a demanda, há carência nas outras regiões. É importante frisar a necessidade de assistência multiprofissional para se alcançar resultados satisfatórios.

O brasileiro tem o hábito de cuidar da higiene bucal corretamente? Ainda falta essa cultura?
Isso tem melhorado, mas alguns tentando melhorar escolhem o caminho de usar enxaguatórios bucais, que podem ser um fator de risco como já mencionamos. Ter uma boa alimentação, não fumar, não beber ou beber pouco, cuidar dos dentes e das gengivas é fundamental para a prevenção dessa e de diversas outras doenças.

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