Boas maneiras na Internet
J. Roberto Whitaker Penteado
Com milhões de pessoas comunicando-se diariamente (ou hora-a-hora e até minuto-a-minuto) pela rede Internet, é razoável que se procurem estabelecer algumas poucas regras de boa convivência e respeito mútuo digitais. A revista ‘‘Veja’’ publicou, em junho de 98, uma lista ‘‘do certo e o errado na troca de mensagens pela rede’’, que vem servindo de referência aos internautas brasileiros. Vamos a elas:
Mensagem em maiúsculas são consideradas ofensivas. Convencionou-se considerá-las o equivalente eletrônico do grito; se deseja grifar uma palavra, escreva-a entre asteriscos; por educação, responda às mensagens que receber em, no máximo, 24 horas; espere pela resposta. Se não a receber, é mais educado não insistir; seja claro ao preencher o campo ‘‘Assunto’’ (Subject), para facilitar a leitura; cite a fonte sempre que mandar arquivos anexados ao e-mail; não abuse da objetividade. Respostas muito curtas podem ser consideradas grosseiras; não passe adiante mensagens circulares, como correntes da sorte, por exemplo. Elas sobrecarregam a rede e o micro do destinatário.
A revista advertia que as normas são válidas para o mundo inteiro, embora não sejam obrigatórias. ‘‘Quem não as empregar não estará cometendo gafe alguma. Mas, quem as utilizar, demonstrará refinamento acima do normal’’. Na era da tecnologia, contudo, tudo tende a tornar-se obsoleto muito rapidamente e essas normas não fogem à regra. Por exemplo, a maioria dos browsers – ou navegadores – já permite que as mensagens tenham sofisticação gráfica maior do que o pioneiro ‘‘texto-helvetica-corpo-10’’, tornando os dois primeiros preceitos inócuos...
Também a questão das respostas demanda, hoje, maior reflexão. Houve tempo em que os internautas mais constantes tinham um dispositivo de resposta automática para confirmar o recebimento das mensagens. Só que o volume aumentou de tal forma que nem sempre é viável responder em 24 horas (às vezes 24 horas não dá nem para ‘‘ler’’ as mensagens recebidas) – e fazer um follow-up das mensagens enviadas, cobrando, de fato, uma resposta, pode ser até uma forma de colaboração.
Levando em conta, entretanto, a minha personalíssima análise da comunicação eletrônica (ou e-comunicação), acho que há dois aspectos que foram esquecidos nesse ideário velho de mais de um ano. O primeiro é a questão do tamanho dos arquivos. Da mesma forma que, quando surgiu o fax, estabeleceu-se um limite informal para o número de páginas máximo considerado aceitável pelo receptor, também deveria haver uma forma de se definir uma fronteira para as mensagens que não fossem especialmente solicitadas (como downloads, por exemplo). Digamos, 100 MB? Não é raro que minha conexão seja tomada por centenas de MB de uma foto de um novo bebê na família ou uma gracinha gráfica qualquer, praticamente inviabilizando o uso do computador, naquele momento, para outras finalidades.
A outra praga é o junk-mail eletrônico. Pelo fato de meu e-mail ter ido parar em listas distantes, tenho recebido longas e detalhadas comunicações dos cultivadores de cacau da Bahia, insossas mensagens da ‘‘magriça notívaga’’ e impublicáveis propostas sobre sexo on-line, sem possibilidade de defesa. Porque essas figuras jamais atendem aos repetidos replies de unsubscribe ou tirem-meu-e-mail-de-sua-lista. Uma sugestão seria direcionar as queixas aos servidores, que, por sua vez, poderiam impor multas a quem abusasse do envio de mensagens não-solicitadas. Só que daí poderia ser um passo curto para o estabelecimento da censura à Internet – que a maioria dos governos parece desejar – principalmente os das ditaduras.
Em todo o caso, com a proliferação das possibilidades de conexão e o crescimento do número de usuários, não seria má idéia começar a pensar-se em um código de ética para o setor. As adesões seriam necessariamente voluntárias, mas pelo menos, ele serviria para fazer com que os transgressores habituais se sentissem menos à-vontade para invadir – por vias eletrônicas – nossa já precária privacidade.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de universidade no Rio de Janeiro
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