Os princípios democráticos da Constituição de 1946, que vigoraram praticamente intactos até o movimento militar de 1964, fizeram a economia do Brasil crescer, o país desenvolver-se e o povo brasileiro (talvez sem se dar conta) viver a melhor época de nossa história republicana, após o fim do Estado Novo, em 1945.
Não se trata, leitor, de conclusão ditada pelo sentimento pessoal de nostalgia deste repórter. Em absoluto. É algo comprovado por pesquisas criteriosas do economista Marco Antônio Campos Martins, Ph.D da Universidade de Chicago, constantes de ensaio recém-concluído, sobre ''Regimes Constitucionais, Crescimento e Estagnação da Economia brasileira-1947/1999'', apresentado na Universidade de Brasília.
A partir de 1964, porém, sob o regime militar, ao adotar-se, durante 20 anos, a prática da legislação por decretos-leis, nossa economia desandou, de sobressalto em sobressalto. Esse fenômeno persistiu na Constituição de 1988, que trocou o ruim da autocracia dos decretos pela ruindade autocrática das medidas provisórias (MPs).
A conclusão de Marco Antônio mostra o óbvio: enquanto nossa legislação econômica se fez no Congresso, em meio ao entrechoque de idéias, mas conforme ao bom senso, em função do contato dos legisladores com o povo, a economia do país funcionou bem. Os supostos gênios econômicos, donos de verdades absolutas, com utopias e panacéias de gabinete, levaram-nos ao endividamento externo, esbanjamentos fantásticos, à dependência criminosa de economias estrangeiras e organismos como o FMI, agente da agiotagem mundial, paizão dos países ricos e dos ricos dos países pobres, mas padrasto de nossos 50 milhões de miseráveis.
Esse trabalho confirma a justeza da verdade que Churchill proclamou: a democracia tem defeitos, mas é o melhor dos regimes. O corolário de suas conclusões seria a remoção do lixo das MPs, que, sob o atual governo, bateram todos os recordes e nos puseram na triste situação em que estamos. E que tal reprimir, para valer (tarefa para a Justiça e os jovens procuradores), os abusos do poder econômico nos pleitos? Teríamos, talvez, de volta à política uma boa cota da gente de carne e osso, como nos bons tempos, e menos bonequinhas e bonecos empoados, que a marquetagem manda às televisões, para ludibriar o povo.
O servilismo econômico incendiou a Argentina. Vamos esperar que nos suceda o mesmo? Se não mudar a mente dos ''sábios'' de nossa economia, que a bela obra de Marco Antônio ajude a de nosso povo a livrar-nos desses piromaníacos em 2002.


RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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