É muito provável que o livro ‘’De Cuba, com carinho’’ não conseguisse tanta repercussão no Brasil se a sua autora, a blogueira cubana Yoani Sánchez, não tivesse sido alvo de fortes protestos da esquerda brasileira. Se a intenção era calar a autora do blog Generación Y, parece que o ‘’tiro saiu pela culatra’’. A mulher conseguiu muito mais espaço nos veículos de comunicação depois da recepção pouco amistosa no interior da Bahia. Além disso, para irritação dos simpatizantes dos irmãos Castro, políticos da oposição se aproveitaram da situação convidando a escritora para visitar o Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e pontos turísticos, dando espaço para que a blogueira relatasse as dificuldades e amarguras impostas pelo governo cubano. Por conta de Yoani, esquerda e direita brasileira relembraram antigos embates ideológicos.
A visita da ativista política ao Brasil aconteceu no mesmo instante em que a Raúl Castro, 81 anos, foi reeleito para um segundo mandato de mais cinco anos como presidente de Cuba. Em 2018, ele entregará o cargo a um sucessor, colocando fim a um período de 59 anos dele e do irmão, Fidel Castro, à frente do poder em Havana. Pelo que tudo indica, caberá ao número dois do governo cubano, o vice do Conselho de Estado, Miguel Diaz-Canel, 52 anos, conduzir à modernidade o País que representa o único regime comunista das três Américas.
É justamente o simbolismo dessa resistência comunista neste lado do Atlântico que mexe com a cabeça da esquerda brasileira a ponto de impedir quase à força que Yoani Sánchez levantasse a voz contra o regime castrista. Fidel, ícone da Revolução Cubana, tem muitos admiradores no Brasil - é fácil encontrá-los mesmo entre quem não é simpático ao comunismo. Yoani percebeu isso também em locais mais receptivos à sua presença, como o Rio de Janeiro, onde vez por outra escutou pela rua um grito de ‘’Viva Fidel’’.
Mas a mulher encontrou também muitos simpatizantes. Provavelmente nem a ativista, nem os editores do seu livro esperavam que a blogueira causasse tanto furor por onde passou. Ela não é a única cubana a manifestar posições contrárias ao regime. Outros intelectuais também se dedicam a denunciar a falta de liberdade de expressão e as dificuldades do povo. Depois de 20 pedidos negados para deixar a ilha, Yoani pôde vir ao Brasil graças a uma reforma migratória que entrou em vigor em 14 de janeiro e eliminou o visto de saída e a carta-convite - medidas que dificultavam as viagens dos cubanos ao exterior. Daqui, ela inicia um giro de 80 dias para 12 países da América Latina, Estados Unidos e Europa. Resta saber se nesses locais, a presença da blogueira causará tanto barulho quanto no Brasil.

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