Na noite de 10 de novembro, o Brasil ficou às escuras. Uma queda no fornecimento de energia atingiu 18 Estados, afetando 60 milhões de pessoas. O incidente reavivou o fantasma do apagão, que assolou grande parte do País em 1999. O que se seguiu aos fenômenos foi muita controvésia sobre as causas do blecaute.

Neste ano, o tema virou alvo de briga política entre governo e oposição. Na tarde de ontem, o Ministério de Minas Energia divulgou nota oficial afirmando que um curto-circuito, que derrubou três linhas de alta tensão, foi o motivo do blecaute.

A justificativa é alvo de críticas do engenheiro eletricista e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) José Fernando Mangili Júnior. Segundo ele, o sistema está preparado para receber descargas atmosféricas.

O governo alega que o apagão foi provocado por um curto-circuito. Qual é a sua opinião sobre essa justificativa?
Não adianta essas pessoas virem à televisão e dizer que foi um simples problema meteorológico. Não foi. Francamente falando, quem vem à televisão para dizer que um curto-circuito ou um raio provocou isso no sistema (está errado). Vamos mudar para outro país. Porque isso vai acontecer de novo. O sistema está preparado para receber descargas atmosféricas, com ventos fortes, desde que não rompam as linhas de transmissão. Não caiu linha nenhuma. O que pode ter acontecido é uma falha no sistema, como uma atuação indevida de algum dispositivo de proteção, um gerenciamento inadequado. Um problema dessa envergadura não ocorreu por conta de uma descarga atmosférica. Ela pode ter contribuído, mas não foi fator determinante.

A grande distância entre as usinas produtoras e os grandes consumidores de energia representam um risco para a distribuição de energia?
É um risco calculado por conta de se ter um lugar de grande concentração de geração de energia transmitindo a longas distâncias. A decisão por utilizar a Usina de Itaipu no passado foi técnica e política, mas tecnicamente é viável. É uma usina consistente, um sucesso de engenharia.

Agora, a grande distância existe. O Brasil é assim. Você transporta cargas, pessoas e energia a longas distâncias. A solução seria colocar as usinas ao lado dos centros consumidores de grande porte. Mas como fazer isso?

Qual é a sua avaliação sobre a atuação dos técnicos após o blecaute?
No máximo de seis a dez horas depois teria como se cercear o problema e identificar, com uma probabilidade altíssima de acerto, qual foi de fato o problema, onde ocorreu e qual equipamento falhou. Pela proporção do Apagão, entre três e seis horas para restabelecer, é um tempo que está dentro do que tecnicamente tem que ser.


O sistema brasileiro de distribuição de produção e distribuição de energia é confiável?
Todos os sistemas têm possibilidade de falhar um dia. Não existe sistema 100% seguro. O sistema elétrico brasileiro tem boa qualidade, não é tão vulnerável. Poderia ser melhor se investimentos tivessem sido feitos nos últimos 20 anos. Se isso for feito daqui para a frente, tudo bem. Vai ter problema no futuro? Pode ser que sim. Mais cada vez com menor probabilidade.

Mas com as mudanças climáticas e a ocorrência cada vez mais comum de tempestades, o investimento não deve ser prioridade ainda maior?
Tem que se investir ainda mais nas estruturas de sustentação das linhas, nas próprias linhas. Se cai uma linha tem que isolar apenas aquele trecho. Tem que haver uma preocupação muito grande com isso. Se previa, mas talvez não se imaginasse, que nós fôssemos enfrentar tempestades tão grandes quanto as que estamos enfrentando nos últimos dois anos. Nunca vi isso antes. O que antes era relegado a segundo plano, hoje é prioridade. A energia é um setor que tem que ser visto, cuidado, observado por pessoas tecnicamente competentes, com formação específica para atuar nessa área. Com aventureiros, vai ser um apagão atrás do outro.

A energia hidrelétrica é a mais viável ou o País deveria diversificar?
É viável. É uma energia relativamente barata. Se as usinas forem construídas com as condições técnicas precisas, equipamentos de boa qualidade, com orçamentos reais, políticas administrativas firmes e consistente, você tem uma matriz energética que é capaz de produzir energia a custo baixo.

O País deveria investir também em fontes alternativas?
O Brasil tem condições de diversificar as fontes, com energia solar, eólica, mas elas ainda têm um custo muito elevado de produção, que está barateando ao longo dos anos. As próprias termelétricas, com a questão do gás natural e a descoberta de jazidas enormes, deverão proporcionar energia barata.

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