''A engrenagem quase parou'', afirma José Antônio Fontes, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), sobre os reflexos no mercado externo que cortaram o crédito dos frigoríficos, essenciais para comprar carne e financiar a logística de exportação.

Em entrevista à FOLHA, ele observa que houve aumento de oferta nos supermercados e açougues brasileiros, mas os preços não baixaram e isso deixou o consumidor irritado. ''Certamente o varejo estava com um estoque de carne comprada por um preço mais alto e não podia baixar''.

Qual o impacto da crise no mercado de carnes?
Até dezembro tudo correu normalmente, mas a partir de janeiro a situação se complicou. Essa crise é distinta das outras, porque cortou o básico de toda a cadeia produtiva: o crédito. No caso da carne, ele é necessário desde a criação do boi até a entrega para o frigorífico. Este, por sua vez, precisa (de crédito) para comprar dos pecuaristas e exportar. Isso desapareceu para todo mundo. Como o problema afetou os bancos, que são a fonte do crédito, a engrenagem quase parou. É igual a andar de bicicleta, se você tirar a corrente da catraca ela para, não sai do lugar. O que aconteceu com a carne bovina foi exatamente isso.

E quais foram os reflexos internos?
O consumidor lá fora quando reduz a carne bovina consome as variedades comuns da região onde mora. Aqui no Brasil é a mesma coisa. Os frigoríficos começaram a fazer campanhas de venda para os supermercados. Por isso é que se acha no varejo carne em promoção com mais de 60 dias de abate. Isso é carne que ficou parada, guardada e não pode existir porque seu giro deve ser muito rápido. O filé mignon que não foi exportado ficou na câmara fria e não teve outro jeito senão fazer promoções para pulverizar isso no mercado interno.

Mas o preço não caiu. Quanto mais carne, menor o preço, não seria essa a lógica?
A cadeia da pecuária é complexa. Começa pelo pecuarista que confina, engorda e vende, ele é o ponto inicial dos problemas. Daí vai para quem? Para o frigorífico que é outro estágio e há os custos com logística, créditos, encargos trabalhistas, impostos e assim por diante. Depois vai para o varejo que também tem os problemas e ainda pega o acumulado de impostos das etapas anteriores. Por isso existiu há poucas semanas uma discussão forte entre associações de frigoríficos e de supermercados. Fazia tempo que isso não acontecia e pode haver algo que não está bem entre eles.

Por que?
Existe algum problema na cadeia e sobrou prejuízo para alguma das partes, porque o consumo não está bom. Pode estar sobrando aqui porque há dificuldades para vender ali. Ela tem dois ciclos e sempre cai em janeiro e julho. Essa é a flutuação.

Por que os preços demoram tanto para baixar no varejo?
Certamente o varejo estava com um estoque de carne comprada por um preço mais alto e não podia baixar. É isso que todos têm que entender. Essa reposição não é rápida. Se baixa hoje para o produtor e não baixa amanhã na gôndola é porque essa carne foi comprada há mais de 30 dias. E a carne que é negociada hoje vai demorar mais 30 dias para chegar no mercado.

Qual a importância do consumo interno?
Não creio que o consumo interno caia, e com uma queda de preços ele pode até aumentar. Mas a tendência é ficar em um número próximo de 35 quilos de carne per capita. Eles são importantes porque sustentam o negócio, já que o consumo do mercado externo é de no máximo 20% da produção. O restante (80%) é pulverizado aqui e equivale a até 7 milhões de toneladas. Calculando isso em cabeças são 25 milhões só no mercado interno, com crise e tudo mais.

Quando o mercado vai voltar ao normal?
Tudo vai depender da questão da recuperação econômica dos países mais afetados que consomem carne. A Rússia é o nosso maior importador e quanto mais rápido eles se recuperarem, mais cedo tudo volta ao normal. São mais de 150 países que importam e a União Européia está voltando a consumir a nossa carne. O problema é que os cortes nobres estão sobrando e por isso houve esse barulho todo. Mas acho que não tem a menor chance de recuperação até outubro ou novembro desse ano.

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