Jamais a menina Bianca da Silva de Oliveira, de 11 anos, seria notícia em outra circunstância. Ela, uma trabalhadora que devia ter tempo para os estudos e as brincadeiras de menina, engraxa sapatos no Rio de Janeiro. Como tantas outras e outros, todos com a infância roubada.
Mas Bianca, feito os países pobres que se curvam diante das autoridades monetárias internacionais, pegou de jeito ontem o atual chefe da missão do FMI (Fundo Monetário Internacional), Jorge Marquez-Ruarte, e pediu dinheiro a ele. Ou melhor, ao contrário de alguns representantes de países pobres, Bianca do baixo de sua caixa de engraxate abordou com ousadia o estrangeiro, postado no alto de seu status de autoridade.
Aconteceu na entrada do aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro, quando o chefe da missão do FMI dirigia-se para Brasília, onde teria mais tarde encontro com integrantes do governo à tarde. Bianca não ganhou dinheiro, mas virou notícia. E justificou aos jornalistas que a entrevistaram: estava com fome, por isso recorreu ao socorro do FMI. Só não teve sucesso na sua precária negociação, feita de improviso e impulsionada por uma sensação que arde no estômago de quem não tem o que comer.
Ou será que Bianca saiu vitoriosa desse episódio? Quem sabe o chefe da missão do FMI naquele momento, que deve ter sido inoportuno para ele, não tenha tido contato com uma parte do Brasil que desconhecia? Ou só ouvia falar?
Walter Ogama

mockup