Durante o lançamento oficial de sua campanha, Luiz Inácio Lula da Silva euforicamente divulgou as diretrizes do seu programa de governo através de uma carta-compromisso composta de 13 pontos. Neste documento de boas intenções (dos quais, como se costuma dizer, ‘‘o inferno está cheio’’) o candidato do PT promete, entre outras coisas, acabar com o desemprego, a fome, dar terra a todos os sem-terra, garantir o direito de cidadania a todos os brasileiros, acabar com a miséria dos nordestinos etc. Tudo foi prometido, ‘‘em nome do social’’, esta expressão jeca cunhada do governo Sarney e que infelizmente pegou, continuando muito em uso.
Outros pontos da carta-compromisso deixam de lado o aspecto populista do tipo messiânico, que tenta sacudir as emoções da massa oferecendo-lhe a ascensão do inferno ao céu através de um redentor, e partem para um acento moralista mais ao gosto da classe média. Neste enfoque peculiar o candidato Lula promete: ‘‘Empenhar todos os esforços para acabar com a corrupção e a sonegação de impostos’’; ‘‘defender a família brasileira da desagregação que hoje a ameaça’’. Como nos demais compromissos em que não se esclarece como alcançar o nirvana social, não ficou claro se o resgate da família será feito por despacho do vice Brizola ou por passe de mágica.
Muito interessante também o compromisso número 12: ‘‘Governar o Brasil com muita fé em Deus e com uma competente equipe de pessoas subordinadas à ética e acima de qualquer interesse pessoal’’. Tal equipe, segundo proposta do governador petista do Distrito Federal, Cristóvam Buarque, seria durante os cem primeiros dias do governo Lula a atual equipe econômica de presidente Fernando Henrique Cardoso. É proposta, diga-se de passagem, bastante esquisita, pois pode levar o eleitor médio a se perguntar por que diabos então haveria de trocar Fernando Henrique por Lula, já que a equipe do atual presidente é competente, ética e trabalha acima dos interesses pessoais.
Mas o toque para agradar aos demais partidos que compõem a frente de esquerdas (PDT, PSB, PC B e PCB) aparece no ponto 13, que talvez dê azar ao candidato Lula, que já começou a despencar na preferência dos eleitores segundo última pesquisa do Ibope-TV Globo-Estado. Para não assustar com radicalismos exagerados, o último compromisso vem embalado numa sutil promessa revolucionária de igualdade de classes: ‘‘Assegurar um novo contrato social com o País fundamentado numa nova hegemonia democrática da qual façam parte todos os brasileiros’’.
Este novo pacto e esta nova hegemonia provavelmente se baseiam no enigmático ‘‘socialismo moreno’’ do engenheiro Brizola, que acoplado ao misterioso socialismo do PT (os petistas jamais conseguiram explicar claramente sua ideologia socialista) farão de Lula realmente o presidente dos pobres, uma vez que sob seu comando todos os brasileiros empobrecerão. Será a igualdade na miséria, exceto que a casta governante ficará cada vez mais rica. Afinal, desde a campanha anterior de 1994, o patrimônio de Lula cresceu 120%, segundo sua declaração de bens.
O programa de governo do PT promete ainda mundos e fundos, mas só não ensina o que será feito para alcançar o paraíso. É um bestialógico de palanque com toques terceiro-mundistas que apenas serve para ampliar a retórica de um Lula salvador da pátria. Quase asfixiado por sua vaidade, ensandecido pelo gosto de um possível futuro poder, ele brada: ‘‘Assumo o compromisso de livrar o Brasil da vergonha histórica de ser uma nação ainda com legiões de famintos e flagelados, doentes e analfabetos, desempregados e humilhados, sobreviventes da dor’’. Ele promete dobrar o salário mínimo, pôr todas as crianças na escola, reduzir a jornada de trabalho. Só não ensina como é possível fazer o milagre. E para quê? Ele é o messias, o ungido das esquerdas, o condutor dos oprimidos e humilhados. Basta um despacho, um decreto, uma varinha de condão, e tudo se resolve.
Mas Lula não é o único a produzir bestialógicos, sempre aplaudido por Brizola - a quem foi imposto pelo PT um ‘‘silêncio obsequioso’’ para se evitar maiores prejuízos à campanha. Além de Lula e de Fernando Henrique, mais onze candidatos nanicos concorrem à presidência da República, e vários deles são pródigos em absurdos verbais. Como escreveu o jornalista Antonio Carlos Pereira: ‘‘Alguns desses candidatos concorrem às eleições para firmar posição, tentando passar para o plano da política suas convicções íntimas. Alguns querem apenas aparecer, por razões mais egoístas. E, finalmente, há os que deveriam estar sendo estudados por juntas psiquiátricas’’.
Entre os candidatos mais excêntricos se distingue Enéas Carneiro (Prona), para o qual perdeu Brizola na eleição passada. Desta vez Enéas promete fazer a bomba atômica, e por menos tempo que ele os demais microcandidatos tenham no programa eleitoral gratuito da TV, saberão fazer dos seus segundos momentos de glória pessoal, além de passar a impressão de que política é pândega de mau gosto. Mas sejamos justos, essas características não pertencem apenas aos nanicos. Aí está o Lula que não me deixa mentir.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga

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