Curitiba - Piadas, mensagens de auto-ajuda, correntes de solidariedade. Muitas empresas estão descobrindo que as caixas postais de seus funcionários vivem cheias desse tipo de mensagem. No Brasil, a estimativa é de que circulem cerca de um milhão de e-mails considerados inúteis por dia. Para o pesquisador Artur Roman, a troca dessas mensagens eletrônicas funciona como uma espécie de cano de escape para a rotina mediocrizante das organizações.
Trinta e cinco por cento das empresas monitoram os e-mails e metade das grandes companhias instaladas no Brasil controla o correio eletrônico e as páginas visitadas na internet pelos funcionários. As empresas têm basicamente duas preocupações. A primeira delas se refere ao tempo perdido com esse ''besteirol'' no horário de trabalho. A segunda é sobre o risco de exposição de seus sistemas a vírus e invasão de hackers.
Os e-mails que circulam nas empresas foram estudados pelo linguista Artur Roman para sua tese de doutorado em Ciências da Comunicação, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre setembro de 1995 e maio de 2001, ele coletou, analisou e classificou 2.400 mails recebidos de 160 remetentes de 160 empresas do Brasil, médias, grandes, nacionais, multinacionais, localizadas principalmente nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, região onde se concentra mais da metade dos usuários e de empresas conectadas à internet no Brasil. Esses mails circularam por grupos de distribuição, envolvendo perto de 4 mil usuários em mais de mil empresas.
Os mails foram classificados em oito categorias temáticas: diversos, motivadores, solidariedade, questões de gênero, sexo, tecnologia, trabalho e mails com correntes. Roman partiu da hipótese de que o e-mail está sendo utilizado nos ambientes de trabalho como um atalho para o relacionamento interpessoal, possibilitando o estreitamento de vínculos, compartilhamento de idéias, sonhos, revoltas, e outros sentimentos represados no cotidiano, especialmente diante de situações de mudanças importantes nas organizações como privatizações, fusões e reengenharia. ''São situações geradoras de insegurança quanto à permanência no emprego, além de crise de identidade sofrida pelos trabalhadores'', explica.
Para o pesquisador, esse fluxo intenso de mensagens via e-mail abre, na dinâmica produtiva das empresas, um espaço clandestino em que se estabelece uma solidariedade virtual entre os participantes da rede. ''Essa troca de mensagens divertidas, motivadoras, piegas, apaixonadas, lúdicas, e inconsequentemente libertárias faz uma oposição ao discurso organizacional sério e padronizado'', analisa. Segundo Roman, é uma trégua, que suspende momentaneamente as regras e as normas do cotidiano, pautadas nos preceitos de competitividade e produtividade, através da subversão da seriedade e da inversão das regras que comandam o cotidiano.
Nos mails analisados, há mensagens de toda natureza, mas predominam aqueles que provocam riso. ''O riso sempre foi arma dos oprimidos. Os personagens das piadas que circulam nos e-mails são pessoas comuns: a loira burra, o português, o marido traído, o machista, a feminista, participantes frequentes da mediocridade cotidiana'', diz Roman. Como explicar mensagens sérias, outras politizadas, e mais outras alienadas, ao lado de poesias piegas e piadas infames, análises de personalidade, testes de inteligência, aviso de crianças perdidas, alerta sobre vírus? Para o pesquisador, ''orbitam através das redes comunicacionais as referências de vida, visões de mundo, crenças, expectativas, num redemoinho onde tudo se mistura e se banaliza''.

mockup