Embora não exista nenhum tipo de levantamento oficial, acredita-se que o número de mulheres que benzem seja bem maior do que o de homens. Mas as orações feitas por benzedeiros também atrai a atenção daqueles que acreditam no poder das orações. Em Londrina, a Folha conversou com dois deles.
Pedro Gomes, 80 anos, conta que desde bebê, quando tinha apenas um ano e meio de idade, já emanava a sabedoria de interceder pelos outros. Alheio a entrevistas, recebeu uma equipe de reportagem pela primeira vez na vida para falar do seu dom. O apelido Pedro ''Cobra'' foi lhe dado pelos amigos de lida no campo, em Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio), por causa das mais de 10 vezes que foi picado por espécies peçonhentas e conseguiu se curar apenas com benzimentos.
As orações que faz para quem o procura, Pedro aprendeu em família e com conhecidos que já benziam. Suas preces, garante, ''já correram o Brasil e o mundo'', pois a força de seu benzimento tornou-se conhecida em países como Estados Unidos e Japão. ''Desde criança que as pessoas me procuram. Já tentei passar para outra pessoa mas Deus não aceitou. Tenho que seguir até o dia em que Ele me levar desse mundo.''
O benzimento feito por Pedro se baseia em orações conhecidas como a Salve Rainha, o Pai Nosso e a Ave Maria, e na prescrição de água benta e de chás de ervas. ''Eu só faço os pedidos das pessoas e entrego para Deus, que é quem cura'', aponta. Ele atende a todos gratuitamente. ''Gostaria de poder ajudar muito mais gente.''
Há pouco mais de um ano ele e a esposa Iracema, com quem está casado há 62 anos, decidiram se mudar para Londrina por causa da idade avançada. Na cidade, continuou atendendo quem procura num pequeno quarto na casa onde mora, no Conjunto Luiz de Sá (zona norte). Ao lado do bonito altar, ele exibe o diploma da Escola de Formação Profissional de Propagandista Espiritual, do Rio de Janeiro (RJ), obtido em 1975. Além de crianças e adultos, Pedro ''Cobra'' também benze residências, hospitais, escolas e até animais enfermos.
Assim como Pedro, João Gomes da Silva, de 71 anos, também se vê como um instrumento de Deus. ''Não é estudo nem nada. É um dom de Deus que nem sabia que tinha e acabei descobrindo'', fala. Ele também não cobra pelas orações que realiza. ''Benzimento é sagrado e não posso cobrar'', completa. Seo João aprendeu a benzer com a mãe e depois com um irmão já falecido.
Na casa onde mora com a família, no Jardim Piza (zona sul), ele recebe as pessoas numa sala onde fica um altar com santos católicos e ''orixás do bem''. Ali, ele atende crianças com ''dificuldade para dormir, irisipela, icterícia, vento-virado, mal de Simioto, quebranto,...''. Muitos adultos também o procuram.
E suas orações são realmente boas, garante a dona-de-casa Marli Alves da Silva, de 35 anos. Frequentemente, ela benze o filho Luis Felipe, de um ano e dois meses, e afirma que a melhora é sentida logo após as orações. ''Ele fica muito mais calmo''. ''Para mim, o benzimento depende dos dois lados, porque trazer um filho para benzer e não acreditar não adianta nada'', fala Marli, que aprendeu a crer nas orações com a avó, que costumava benzer os netos.L.A.

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