A modernidade iluminou os mais variados ramos do conhecimento. Na medicina, por exemplo, os avanços são enormes. O interior do corpo humano já pode ser fotografado e avaliado sem a necessidade de cortes ou perda de nenhuma gota de sangue. O acesso a novas técnicas e tratamentos também se ampliou. Mas existem coisas que a ciência médica ainda se esforça para entender e explicar. É quando a fé em um poder maior, espiritual, tenta auxiliar. E uma das formas mais comuns de pedir esse tipo de ajuda é através do benzimento: prática que sobreviveu a pressões de toda ordem ao longo do tempo.
A historiadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Lúcia Helena Oliveira Silva, conta que a prática do benzimento ''existe desde que o mundo é mundo'' e que sobreviveu aos tempos modernos graças à sua capacidade de adaptação e à transmissão desse tipo de conhecimento de uma geração a outra. Ela explica que durante a Inquisição, na Idade Média, muitas mulheres que praticavam o benzimento foram perseguidas e taxadas de bruxas ou de praticarem heresias. Mesmo após o abrandamento do radicalismo do período inquisitorial, essa pressão da Igreja de Roma continuou sendo exercida. Ainda assim, esse ''conhecimento'' conseguiu se manter vivo.
A pressão da família do benzedor é outra variante que tem de ser levada em conta, aponta a pesquisadora. O rótulo de benzedeira ou benzedeiro ganhou contornos negativos e fez com que muitas pessoas passassem a praticar o benzimento de forma quase que secreta, sem propagandear o que faziam. ''A família também costuma proibir por entender que a benzedeira está sendo explorada pelos outros'', diz Lúcia Silva, pois não é exigida nenhuma cobrança pelo benzimento e seus parentes são requisitados a qualquer hora, nos sete dias da semana. ''Essas pessoas se obrigam à caridade porque entendem que são instrumentos de Deus'', completa a professora.
Também o avanço da medicina contribuiu para que o benzimento e a figura da benzedeira ficassem, de certa maneira, marginalizados. Com a ampliação do acesso à saúde pública e do conhecimento sobre as doenças, o trabalho das benzedeiras foi colocado em um plano inferior. Aceitá-lo como eficaz significaria negar o conhecimento científico.
As benzedeiras e benzedeiros, então, passaram a ser mais requisitados em comunidades pequenas e em localidades rurais, onde o acesso aos médicos e aos medicamentos industrializados era restrito. Com o isolamento, essas pessoas faziam as vezes do médico, usando a fé e o conhecimento que tinham das plantas medicinais e dos remédios caseiros. ''Eles conhecem, na prática, as doenças infantis e as psicossomáticas e buscam transferir uma energia positiva, que já foi explicada pela física'', detalha a historiadora.
No Brasil, ressalta Lúcia Silva, a miscigenação das raças também teve reflexos na prática do benzimento. Hoje, muitos benzedores misturam em seus altares, rezas e orações símbolos e crenças de religiões diferentes, como o candomblé, o espiritismo e o catolicismo. É comum, por exemplo, a figura do Menino Jesus e de outros santos católicos estarem ao lado do Preto Velho ou de Iemanjá. Todos, porém, com o mesmo objetivo: ajudar a curar doenças, amenizar o sofrimento e harmonizar a vida daqueles que acreditam.

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