Benevolência demais com os corruptos
A China não é propriamente um exemplo de honestidade para o mundo, mas pune severamente quem infringe suas normas internas e prejudica seus cidadãos. Na semana passada executou seu então chefe da Administração Estatal de Alimentos e Remédios (cargo equivalente ao de ministro), por corrupção relacionada à aprovação de alimentos e remédios de má qualidade. Culpado ele e culpadas as indústrias que o subornaram, embora não se tenha anunciado qual a pena dada a elas.
Corruptos na vida pública e privada existem em todas as nações, com a diferença de que nas mais civilizadas eles são punidos. No Japão, homem público que é surpreendido em irregularidade costuma suicidar-se, como ocorreu recentemente; na China, ele é executado pelo sistema, como aconteceu semana passada. Enquanto isto ocorre nesses países e em outros mais - onde no mínimo os corruptos são presos e obrigados a ressarcir os danos - no Brasil os escândalos se sucedem, e o ''de plantão'' agora é o da Petrobras. Será preciso ser rápido para inteirar-se deles, porque dentro de alguns dias acontecerá outro e assim sucessivamente, a ponto de os cidadãos já nem mais se lembrarem dos anteriores.
A memória curta também contribui para que eles se sucedam, com muito noticiário e poucas punições. Enquanto peixes miúdos ficam presos nas malhas, os graúdos se safam. No caso da Petrobras, dos capturados ou que estão com mandados de prisão - em torno de 60 pessoas, entre funcionários da estatal em nível de gerência - figuram um ex-presidente, um ex-deputado estadual, um agente da Polícia Federal, servidores da Fundação Estadual do Meio Ambiente (do Rio) e empresários. As acusações são favorecimento em licitações para reparo de plataformas petrolíferas, falsidade documental e coisas afins.
Tudo isto já se conhece da vida pública brasileira, mas como a corrupção envolvendo negócios tem, na contrapartida, também empresas civis, é evidente a presença de corruptos e corruptores. Os esforços policiais, nas fases da investigação e da captura, resultam inúteis, porque os processos se arrastam e ninguém fica preso e nem é condenado a devolver aos cofres públicos os valores subtraídos. Com um tiro na nuca dos acusados e condenados, os chineses resolvem seus problemas e assim atemorizam aqueles com propensão a cometer falcatruas com dinheiro público ou que prejudiquem os cidadãos por alguma outra forma.
Não se deseja que isto aconteça neste país, porque contraria a índole brasileira, mas prisões e a devolução das importâncias roubadas do povo - o que deveria ocorrer por decisões rápidas da Justiça - são aprovadas pela população, sem complacência. Esse rigor não acontece; ao contrário, o sistema legal é favorecedor de desmandos. Veja-se como se estende o caso do presidente do Senado, que ao menos por decoro deveria renunciar à função, até que os fatos sejam apurados e com a punição definitiva se esta for a conclusão. Com esse episódio inacabado, assim como todos os demais do gênero, surge agora o escândalo da Petrobras. Parece que esta terra do Cristo Redentor, maravilha do mundo, está mesmo fadada a viver em estado de sobressalto, de constante decepção e indignação com os homens públicos!





