BENEFÍCIOS DO PLANO REAL - Fim da memória inflacionária
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de dezembro de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
A cena clássica dos marcadores de preço incomodou por muito tempo a vida dos consumidores brasileiros. Com a chegada do Plano Real, a inflação ficou controlada, valorizando o poder aquisitivo da população e movimentando a economia. Em entrevista à FOLHA, a assessora do então ministro Fernando Henrique Cardoso e autora do livro ''A real história do Real'', Maria Clara R.M. do Prado, faz um balanço positivo dos quase 15 anos do Plano, mas alerta para a necessidade de um equilíbrio entre aumento da renda do brasileiro e investimentos em infra-estrutura. ''Se a coisa não for bem amarrada, o risco (de um apagão geral) é grande''.
Quase quinze anos depois da implantação do plano, podemos dizer que o Real é uma moeda que deu certo?
Estamos vendo a inflação em torno de 4,5% no acumulado do ano, um bom nível para um país que ainda é considerado emergente. O mais importante do Plano Real foi acabar com a memória inflacionária que existia no Brasil. Todo mundo raciocinava jogando a inflação para a frente, e isso virava uma bola de neve. As pessoas contratavam serviços já presumindo que a inflação de 10% do mês anterior viraria para 12% no mês seguinte. Era impossível qualquer medida de ordem fiscal ou monetária dar solução para esta inflação endêmica.
A gente vive uma fase de valorização do real frente ao dólar. É possível prever um período de estabilidade da moeda?
É uma situação muito diferente da que o Brasil viveu imediatamente após o Plano Real. Naquela altura, o Banco Central desempenhava uma política cambial do tipo câmbio fixo. Era proposital, porque você tinha que fazer com que a inflação estabilizasse. Como não havia ainda um ambiente propício ao aumento dos investimentos, tinha que contar com o produto importado mais barato para poder manter a inflação baixa. Hoje a gente está vivendo um fenômeno um pouco diferente, com o câmbio flutuante. Obviamente há intervenção do Banco Central todo dia. Se ele não comprasse dólar do jeito que tem comprado, o real estaria mais valorizado ainda.
E se esse dólar continuar caindo a ponto de afetar ainda mais as exportações brasileiras?
O mundo ficou muito pequeno com a globalização, o avanço da informação, da tecnologia. Com esta queda das barreiras comerciais e financeiras, o capital se move com muita facilidade de um país para outro. Vai ganhar espaço no comércio mundial quem for competitivo. Os empresários tem que arregaçar as mangas, investir, treinar e qualificar mão-de-obra para poder competir no mercado internacional e também aqui dentro.
O Brasil está preparado para absorver maiores taxas de crescimento?
O Brasil cresceu 5,7% no último trimestre e já tem gente projetando 6 a 7% de aumento do PIB no ano que vem. A demanda está crescendo muito e a economia tem criado energia própria para crescer. Isso dá emprego, salário, a renda aumenta. Tem ainda os programas sociais do governo, que também ajudam as pessoas a melhorar a renda. Tudo isso somado faz com que aumente a demanda. O setor industrial tem respondido, mas precisa responder com mais rapidez e robustez, para a gente não ter um problema de inflação mais adiante. É preciso haver um compasso equilibrado entre o aumento da demanda e dos investimentos. O outro problema que o país tende a passar é a falta de infra-estrutura. Um país que cresce 7% ao ano precisa de estrutura sedimentada e funcionando para não haver gargalos.
Corremos risco de passar por uma série de apagões?
Tem problema nos aeroportos, nas estradas, no fornecimento de energia elétrica, setores que não foram contemplados com investimentos nos últimos anos. Funcionava bem, não havia problema para um país que estava crescendo em torno de 2% a 3% ao ano. Se você muda de patamar, precisa de estrutura para aguentar o tranco do crescimento. O risco de apagões existe mas não é para já. O governo está atento a isso, a gente observa que há uma preocupação. Mas é um setor que inspira cuidados. Se a coisa não for bem amarrada, o risco é grande.


