Treze por cento da água potável do mundo está no Brasil. Ainda assim, o País passou em janeiro e fevereiro pela maior crise de abastecimento dos últimos anos. Mais de 140 municípios fizeram racionamento, atingindo uma população de cerca de 6 milhões de pessoas em 11 Estados. Quase 50 municípios entraram em colapso e as torneiras ficaram totalmente secas. No verão, normalmente o consumo de água sobe cerca de 15% a 20%, mas neste ano o forte calor provocou um aumento de 30%.
No Paraná, os municípios de Santa Tereza do Oeste, Francisco Beltrão, Assis Chateaubriand e Toledo (Oeste), Almirante Tamandaré (Região Metropolitana de Curitiba), Guarapuava (Centro) e Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) enfrentaram racionamento. Outros municípios, como Londrina, Curitiba e Ponta Grossa (Campos Gerais) tiveram que lidar com o rodízio de fornecimento.
Para o secretário-executivo da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), Luiz Carlos Aversa, um dos problemas do abastecimento de água no País é que o índice de perdas nas tubulações urbanas pode chegar a 50% em alguns municípios. No Japão, por exemplo, o desperdício fica apenas em torno de 9%.
Aversa não poupa críticas à cultura do desperdício de água entre os brasileiros, que ainda usam mangueiras para varrer calçadas, apesar das campanhas de conscientização promovidas por órgãos públicos e organizações ambientais. E sugere que a educação ambiental seja disciplina obrigatória nos currículos escolares.

Como o senhor avalia a crise de desabastecimento de água que enfrentamos este ano?
A água depende do nível de chuvas e o regime de seca deste ano, aliado ao aumento de temperatura, foi algo jamais visto nos últimos anos. Tivemos 20 dias em que os recordes de temperatura foram batidos sucessivamente. Com isso é claro que a população vai consumir mais. Isso faz com que nível das represas vá caindo.

Boa parte da água utilizada em Londrina e Cambé é oriunda do Rio Tibagi. O governo tem realizado obras na captação, mas os problemas de abastecimento podem continuar. Falta investimento nesse tipo de obra no País?
Grande parte das cidades retira água diretamente dos mananciais. Isso é muito comum. Quando há um rio caudaloso, com volume de água suficiente, o ideal é fazer isso mesmo para não deixar a população desabastecida. Outra alternativa seria captar e represar essa água. Outro método de obtenção de água é a perfuração de poços para fazer a captação no lençol freático. A captação no rio pode ser ampliada na medida da necessidade. Basta bombear mais água para a estação de tratamento. Claro que tudo isso deve ser feito por meio de estudos para que não haja desequilíbrios e o rio não seque.

E a captação a partir do Aquífero Guarani?
O Aquífero Guarani está sofrendo tanto quanto as represas. Os rios estão secos e o que alimenta o aquífero são as chuvas. Existem centenas de cidades que são abastecidas pelo Aquífero Guarani e que tiveram redução da oferta de água.

As perdas de água são muito comuns em tubulações mal conservadas. Como combater isso?
A perda é inerente ao sistema de abastecimento. No Japão o índice de perda chega a ser de apenas um dígito, chega a 9% do que se produz. Por ser um país assolado por terremotos, tem tubulação de aço inox que evita desperdício. Nos países mais desenvolvidos da Europa, por exemplo, o índice de perdas é de 15% a 16%. Aqui no Brasil, em determinadas regiões, como a Sudeste, esse índice chega a 23%, 24%. As empresas estaduais têm apresentado resultado nesse sentido, mas em alguns casos o índice de perda bate na casa de 50%. Imagine: metade do que se produz se perde antes de chegar na casa do cliente. É uma loucura total.

O que isso implica?
As empresas de saneamento são ranqueadas pelo índice de perdas no sistema. Isso acontece porque ao requisitar linhas de financiamento internacionais, que possuem juros baixos, um dos critérios é o índice de perdas. Infelizmente, apesar dos recursos que o governo federal tem disponibilizado para as companhias de saneamento, não temos no País recursos para o desenvolvimento operacional e institucional, para combate às perdas.

Essas perdas são grandes?
Municípios como Londrina possuíam muitas ruas em que o tráfego era baixo. Uma rua em que passavam poucos carros e que hoje recebe um volume grande de carros e ônibus. Essa carga recai sobre as redes antigas, que possuem tubulações com 50 ou 60 anos e acabam se rompendo com o peso e a trepidação. Muitos municípios solicitam recursos para novas estações de tratamento de água para tentar diminuir o problema, mas acabam o agravando porque não corrigem esses vazamentos. Se houvesse financiamento para evitar essas perdas, a água economizada seria suficiente para suprir o fornecimento de uma nova estação de tratamento.

Falta investimento na construção de reservatórios?
Não. Durante muitos anos os investimentos de saneamento do País aconteciam por soluço. Um ano acontecia e depois ficávamos quatro anos sem nada. Com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), os recursos não têm faltado. É claro que precisa ser aperfeiçoado, mas a situação que temos passado este ano, se tivéssemos 500 reservatórios a mais, não mudaria. Este ano foi atípico. Não tivemos chuva. Foi um dos períodos de maior estiagem dos últimos 50 anos e isso fez com que o nível do reservatório baixasse continuamente.

Qual o prejuízo provocado pelas ligações clandestinas?
As perdas comerciais, o chamado roubo da água, além de causar um transtorno absurdo, faz com que haja perda de pressão, além de colocar a rede em risco. Se uma pessoa furar a tubulação para colocar uma mangueira, entra sujeira. E quando se fala de abastecimento de água, representa abastecer milhares de pessoas que podem ter a qualidade da água comprometida por causa dessa ligação clandestina. Nos borbotões do País também existe a fraude no hidrômetro. Até pregos são colocados para o hidrômetro não girar. Tem gente que desmonta o equipamento e vira o hidrômetro ao contrário. Essas ações geram perdas de 20% a 30% das águas.

Outro problema é que o brasileiro ainda desperdiça muita água.
O brasileiro tem na mentalidade um hábito de consumo baseado na ideia de que é o País com o maior volume de água doce do mundo. Mas nossos professores esqueceram de dizer que o maior volume fica concentrado na Região Norte, onde o índice de ocupação é baixo. Isso faz com que a população e as autoridades desenvolvam um certo desleixo em relação ao consumo racional de água.
A Organização das Nações Unidas recomenda que o consumo normal de água seja de 180 litros/dia por pessoa e em São Paulo, em alguns bairros, esse consumo chega a 450 litros/dia por pessoa. Isso é um absurdo. A Região Metropolitana de São Paulo tem menos água que a região do semiárido do Nordeste. A captação precisa ser realizada a 100 km de distância, gerando aumento de custos no seu fornecimento.

Como acontece esse desperdício?
À medida que as pessoas vão ascendendo socialmente começam a ter mais equipamentos, como máquinas de lavar roupa, lava-louças, que provocam o desperdício de água. Existem pessoas que varrem a calçada ou lavam o carro com a mangueira. Isso sem contar as pessoas que utilizam o vaso sanitário como lixo. São mulheres que escovam o cabelo e jogam no vaso. Crianças que apontam o lápis e jogam os resíduos na água. Parece inocente, mas causam desperdícios enormes. Cada descarga faz com que sejam utilizados entre 18 e 20 litros de água, quando estão bem regulados.

E qual a importância da educação ambiental neste panorama?
As pessoas falam muito em preservar árvores, proteger animais, mas a educação ambiental não tem chegado à preservação da água. Essas orientações sobre o consumo deveriam acontecer nas escolas de maneira massiva e obrigatória.

Existem pessoas que defendem o aumento do valor da tarifa de água para diminuir o desperdício, seguindo o argumento de que se o serviço for caro, as pessoas utilizariam o recurso de maneira mais comedida. Outras são contrárias a esse aumento porque prejudicaria a parcela da população que possui baixa renda. Como encontrar um equilíbrio?
Quem consome mais, gasta mais. As empresas já identificaram isso e aplicam tarifas diferenciadas. As pessoas que utilizam menos de 10 m³ por mês pagam menos. Quem gasta mais de 30 m³ diários paga tarifas mais caras. Mas é claro que o valor da tarifa de água é muito mais baixo do que a de outros serviços, como a telefonia celular.

Enfim, quais saídas o senhor aponta para a crise de desabastecimento?
A solução para o desabastecimento é o racionamento. Fornecendo menos água, há a redução da produção para abastecer. Mas as empresas podem tomar medidas antes de chegar nessa situação, como o rodízio de água que é adotado em grandes cidades, como Londrina, Maringá e Presidente Prudente.

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