Belinati e o labirinto da política
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de janeiro de 1997
José Antonio Pedriali 
A que labirintos, buracos negros e lugares insondáveis nos conduz esse ofício chamado política! O prefeito de Londrina, Antonio Belinati, que baseou sua campanha vitoriosa nos laços que o unem ao Palácio Iguaçu, ao governador Jaime Lerner e, evidentemente, à vice-governadora Emília Belinati, que coincidentemente é sua esposa, acaba de lançar um grito de guerra, menos de um mês após tomar posse. E está preparando sua cavalaria para arremetê-la justamente contra o governador Jaime Lerner, seus assessores e tudo o que identifica como símbolo do Palácio Iguaçu, com exceção, é claro, de sua esposa, que coincidentemente é a vice-governadora...
A mobilização que está programando para 21 de fevereiro, durante a qual pretende reunir mais de mil lideranças do Norte, entre prefeitos, vereadores, líderes de toda espécie e empresários, para reclamar da falta de investimentos do governo do Estado e da falta de representatividade da região no primeiro escalão da administração Jaime Lerner, é isso: é um grito de guerra. Ou será um grito de alerta? Seja o que for, ironicamente é um grito muito ouvido durante a campanha eleitoral, mas produzido pelas cordas vocais do adversário de Belinati, o deputado federal Luiz Carlos Hauly...
O prefeito Antonio Belinati prefere, compreensivelmente, não interpretar como guerra declarada a mobilização - que batizou, ou alguém batizou em seu lugar, de Movimento pelo Norte. Prefere, prudentemente, classificá-la de grito de alerta (são palavras textuais dele), para que Jaime Lerner e seu secretariado se dêem conta, de uma vez por todas, da crescente insatisfação da região em relação a seu governo. E para que ele, Antonio Belinati - o comentário também é dele -, não seja acusado no futuro, quando Jaime Lerner buscar os votos da região para dar continuidade à sua carreira política, de não ter advertido o governador de que só terá apoio aqui se, de uma vez por todas, deixar de governar para Curitiba e voltar sua atenção para o Norte e as demais regiões do Estado.
Belinati põe panos quentes em seu projeto, ainda embrionário, mas no Palácio Iguaçu sua intenção é interpretada como uma afronta, uma traição: pois, nos círculos próximos ao governador (e seria ilógico acreditar que Jaime Lerner não pensa da mesma forma), tem-se como certo que Belinati só se elegeu graças aos vínculos que demonstrou ter em relação ao Iguaçu e ao esforço pessoal do governador e de seu secretário-chefe de Gabinete, Gerson Guelmann. Compreende-se, assim, por que a posição que demonstra neste momento choca tanto o círculo mais íntimo do poder.
A ofensiva de
Belinati causa no
Iguaçu um sentimento
por enquanto
controlado de ira
E este choque, que se mistura à decepção, ao estupor e ao sentimento por enquanto controlado de ira, tornou-se evidente ontem, quando dona Fani Lerner, esposa do governador e secretária da Criança e Assuntos de Família - uma senhora de hábitos reservados e maneiras gentis - tomou a iniciativa de reconhecer o golpe e anunciar o contra-ataque (leia na coluna Informe FL de hoje). O Palácio Iguaçu vinha mantendo um silêncio cerimonioso, quase sepulcral, e o arroubo de dona Fani, que disse se sentir engasgada com os movimentos afrontosos de Belinati, demonstra o quanto o Palácio e o governador Jaime Lerner sentiram-se atingidos pelo prefeito londrinense.
Dona Fani garante: seu marido, ela e todo o secretariado fazem questão de vir à reunião programada por Belinati para relatar pormenorizadamente os investimentos do Estado na região Norte.
A guerra - ou será apenas um sinal de alerta? - está declarada e o primeiro confronto, ou tentativa de conciliação, tem até data marcada.
Belinati, que tomou a iniciativa do ataque, terá agora que manter o poder de fogo para não passar por um vexame político. Recuar é inadmissível. E o prefeito não admite esta hipótese. O destaque que tem conseguido - e provavelmente vai conseguir ainda mais - em decorrência dessa atitude o projetam como uma liderança em potencial do interior, que vive em constante resmungo contra a Capital e o Palácio Iguaçu. Se tiver fôlego para uma guerra prolongada - ou no mínimo uma campanha contínua de escaramuças -, Belinati poderá reunir forças para, quem sabe, partir oportunamente para a conquista eleitoral do Palácio Iguaçu.
Uma pergunta, no entanto, é indispensável: como ficará sua administração, já que o bom relacionamento com o Palácio Iguaçu, que poderá vir a se deteriorar e até se tornar hostil, foi apontado no decorrer de sua campanha como elemento indispensável para o êxito de seu mandato?


