De uma inocente coleção, a uma doença. É assim que devemos classificar o atual momento, envolvendo a febre da aquisição dos bebês reborn. Reproduzo as palavras de uma conhecida psicóloga de São Paulo: “Se a pessoa cuida intensamente, como se fosse um bebê real, talvez seja o caso da própria família ou da pessoa procurar ajuda profissional e conversar”.

Trata-se de uma histeria coletiva em torno de uma boneca sofisticada, que não passa de um objeto! Quando em abril, uma jovem adolescente publicou um vídeo em seu perfil no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital após “notar que ele não se sentia bem”, o conteúdo viralizou e obteve mais de 8 milhões de visualizações até o momento. Não é para menos! Num país em que as UBSs trabalham para evitar filas intermináveis e muitos morrem sem a atenção devida, saturar o sistema com bonecas é no mínimo, surreal!

Colecionadores sempre existiram. São ausentes de qualquer conotação moral ou ética, porquanto, guardar em casa objetos repletos de significado subjetivo, faz parte da saga do sapiens sobre a Terra. Poderíamos afirmar sem rodeios que mora um colecionador em nós! Passei a minha adolescência colecionando postais e selos! Portanto, não é disto que trata a abordagem do “fenômeno” que envolve hoje a aquisição dos chamados bebês reborn (renascido em inglês).

Quando um hobby vira uma mania? É oportuno recordar o que diz o Aurélio sobre o termo: hábito estranho, incomum e repetitivo; mau hábito: cacoete, vício; ideia fixa; gosto extremo; vontade descontrolada; obsessão. A mania se instaura quando atrelamos a determinado hábito uma carga negativa que depõe contra a integridade física ou mental do sujeito. No caso concreto, ao transferirmos a afetividade normalmente dirigida a pessoas ou até a animais para um objeto (por mais sofisticado que seja).

E já que mencionei os pets, refiro a título de informação que há não muito tempo discuti com um europeu que atacava os seus conterrâneos por “terem mais animais do que filhos”! É claro que a natalidade no velho continente é preocupante; mas, o direito de se possuir animais de estimação não impede a capacidade de procriar.

O nosso afeto é doentio quando desviado para coisas. Um animal ou uma pessoa não são “coisas”! Eles têm a sua individualidade resguardada por lei (direitos humanos ou direitos animais) e o afeto a eles dirigido é em geral retribuído, embora não seja essa condição sine qua non para a existência do afeto em si. Esse sentimento levado ao extremo poderá até ser oblativo (pessoas que dão a vida pelos outros ou para salvar um animal em risco). Ao dirigirmos esse sentimento a objetos (de valor relativo) cometemos um desvio e poderá, em muitos casos, revelar incapacidade de relacionamentos sadios com elementos não “coisificáveis”! Por sua vez, não serão poucos os que dirão simploriamente que essa mania surge paralelamente à queda da natalidade no país, denunciada pelo IBGE. Pessoalmente, não creio.

Os bebês reborn situam-se, a meu ver, em primeira mão, na esfera do comercial. É um sucesso de vendas com uma sofisticada e irresistível engrenagem de marketing. Contudo, como em outros êxitos comerciais, o produto veio ao encontro de uma necessidade (real ou criada). Fábio de Melo tornou público que trouxe um desses bebês dos EUA para a sua mãe que faleceu de Covid. Segundo ele, na pobreza infanto-juvenil, ela nunca pudera ter uma boneca. Ora, o padre cantor tem milhões de fãs! Outras cantoras americanas já mostraram também com orgulho “suas bonecas”! Comercialmente, é uma jogada de mestre! Vende como “água”!

A doença que surge é posterior e é siamesa à solidão que vem caracterizando nossa gente e que nos está remetendo para relacionamentos virtuais e dependência total dos celulares numa funesta solidão. O coração que foi expulso do raciocínio e abriu a porta ao artifício dos algoritmos. Uma boneca que “não dá trabalho”, que não nos decepciona, que não nos interpela! Uma “filha linda” que obedece e que tem os traços previamente definidos e comprados! Um objeto atraente resolve aparentemente nossas carências e consolida comportamentos doentios! Não seria o caso de incentivar a adoção de crianças que estão no juizado esperando pais e mães?

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

mockup