Bebedeiras, a paixão número um - Renzo Sansoni
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de junho de 1998
Renzo Sansoni 
No primeiro dia da Copa do Mundo, dez horas da manhã, friozinho chato, uma cena digna de ser exibida em todas as televisões do país: duas crianças de 5 e 6 anos, carregando, rumo ao boteco, nervosas e insatisfeitas, uma cesta com seis garrafas vazias de cerveja. Vão buscar mais líquido precioso, indispensável o bem desejado. Os adultos já nem querem mais saber do sacrifício de buscar a loirinha gelada. Isto é obrigação de meninos, ora essa! Mandam as crianças e sob ameaça: vão correndo e voltem voando! Algum vizinho pergunta alguma coisa e as crianças, numa feliz inocência e tensas por costume, respondem que o pai ou alguém da família vão bater se elas não trouxerem, rapidinho, a encomenda.
Cena para governos, imprensa , entidades, Unicef, gente de miolo arejado, juízes, OAB, associações médicas, maçonaria, clubes de serviço, pais e mães interessados e responsáveis, etc. apreciarem e verem a quantas andam os meios de enganar o povo e a grande ajuda que a máfia da cerveja, pinga e outros utilitários de tamanha e tal grandeza prestam às famílias brasileiras. Tudo em nome da paixão nacional, da alegria, do curtir intensamente a vida, do botar para quebrar, do não estar nem aí, do dane-se que eu não sou de ferro, não é mesmo? E se o vizinho insiste com as crianças, certamente que ficará cabisbaixo e chocado com o desenrolar da Copa do Mundo naquela família.
E tome cerveja, coma cerveja, respire violência e faça-se tiragosto. E que momento mais propício para se falar mal do governo, do patrão, do emprego, dos familiares, dos vizinhos, do sentimento patriótico nas cores verde-amarelas e de tudo, hein? Que grande momento e que êxtase para os que comungam a inabalável fé alcoólica! Quem sabe até uma surra na esposa ou pescoção nos filhos ou uma escapada, enquanto o marido não chega, certo? A loirinha gelada, geladíssima, é a fada mágica (?) que resolve todos os problemas, frustrações, sonhos, o preço da carne, fantasias, situação financeira, recalques, a falta de escola para os
meninos, complexos, pobreza, depressão, falta de juízo, ansiedade,
quebradeira, nervosismo, a merda de salário, ressentimentos, mágoas, paixões carnais, amor não correspondido, negócios malfeitos, relacionamentos difíceis no emprego, falta de perspectivas para si e para os familiares, tensões, falta de confiança, deficiência de amor próprio, ausência de auto-respeito, crises existenciais e tantas outras mazelas do corpo e da alma, não é verdade?
E que sensação mais gostosa de estar embalado pela loira e pela branquinha, que bacana de liberdade, de cabeça leve, despreocupada!!! O resto.... Ah! o resto que se dane; o Brasil ganhando a Copa, tudo se resolve e o céu fica mais azul, ok? E deixa meus amigos chegarem e vamos buscar mais cerveja e/ou cachaça (o fulano nem perguntou a esposa se podia trazer mais gente, para compartilhar a extrema felicidade do lar alcoolizado).
E lá vêm as duas crianças com a cesta pesada, passos difíceis, frio nas pernas, outras crianças brincando no alpendre e carros em alta velocidade, motoristas impacientes xingando-as e buzinando para desocuparem a rua; na afobação, a cesta cai e quebram duas ou três garrafas; logo vem o choro sofrido, e ouvido em todas as casas, pressentindo um sanguinolento puxão de orelhas e gritos animalescos pela rua afora, numa vergonha sem limites para com os vizinhos. Brasileiros e brasileiras: em milhões de lares, por todo o país, a situação não foi melhor do que o que se escreveu aqui.
E tem sido sempre assim, entra Copa e sai Copa. É muito grande o número de pais, mães e esposas no mais completo desespero pela situação dos filhos, esposos e parentes. Não sabem mais o que fazer, a quem recorrer. Lágrimas e decepções sem conta. Gritam por socorro e ninguém os atende. Sofrem, agitam, blasfemam, morrem, esperneiam, alienam, ficam enlouquecidos, às vezes entram na dança também, matam, aleijam, largam seus lares, suicidam, às vezes ficam em completo silêncio; e.... a mancha etílica vai aumentando e aumentando; e aniquilando vontades, personalidades, responsabilidades e muita gente boa.
Cada vez mais trabalhadores e jovens, de todas as classes sociais, vão sendo arrastados pela serpente universal para um cenário dantescamente tenebroso e sem volta. São muito poucas as autoridades e gente da sociedade que possuem o conhecimento exato da catástrofe alcoólica. A maioria não quer se envolver e abre caminho para a caravana passar e devastar. Até a televisão. Pelos caminhos da bebida alcoólica, a paixão nacional de número um, configura-se a maior tragédia que assola e empobrece o Brasil!


