Renzo Sansoni
Bebedeira, a
paixão nacional
1998. No primeiro dia da Copa do Mundo, dez horas da manhã, friozinho chato, uma cena digna de ser exibida em todas as televisões do país: duas crianças de 5 e 6 anos, carregando, rumo ao boteco, nervosas e insatisfeitas, uma cesta com seis garrrafas vazias de cerveja. Vão buscar mais líquido precioso, indispensável e bem desejado. Os adultos já nem querem mais saber do sacrifício de buscar a loirinha gelada. Isto é obrigação de meninos, ora essa!
Cena para governos, imprensa, entidades, Unicef, gente de miolo arejado, juízes, OAB, associações médicas, maçonaria, clubes de serviço, pais e mães interessados e responsáveis etc...apreciarem e verem a quantas andam os meios de enganar o povo e a grande ajuda que a máfia da cerveja, pinga e outros utilitários de tamanha e tal grandeza prestam às famílias brasileiras.
Tudo em nome da paixão nacional, da alegria, do curtir intensamente a vida, do botar para quebrar, do não estar nem aí, não é mesmo?
E tome cerveja, coma cerveja, respire violência e faça-se tiragosto. E que momento mais propício para se falar mal do governo, do patrão, do emprego, dos familiares, dos vizinhos... Que grande momento e que êxtase para os que comungam a inabalável fé alcoólica! A loirinha gelada, geladíssima, é a fada mágica (?) que resolve todos os problemas, frustrações, sonhos, o preço da carne, fantasias, situação financeira, recalques, a falta de escola para os meninos, não é verdade?
E que sensação mais gostosa de estar embalado pela loira e pela branquinha, que bacana de liberdade, de cabeça leve, despreocupada!!! O resto.... Ah! o resto que se dane; o Brasil ganhando a Copa, tudo se resolve e o céu fica mais azul, ok? E deixa meus amigos chegarem e vamos buscar mais cerveja e/ou cachaça (o fulano nem perguntou à esposa se podia trazer mais gente, para compartilhar a extrema felicidade do lar alcoolizado).
E lá vem as duas crianças com a cesta pesada, passos difíceis, frio nas pernas, outras crianças brincando no alpendre e carros em alta velocidade, motoristas impacientes xingando-as e buzinando para desocuparem a rua; na afobação, a cesta cai e quebram duas ou três garrafas; logo vem o choro sofrido, e ouvido em toda as casas, pressentindo um sanguinolento puxão de orelhas.
Brasileiros e brasileiras: em milhões de lares, por todo o país, a situação não foi melhor do que o que se escreveu aqui. E tem sido sempre assim, entra Copa e sai Copa. É muito grande o número de pais,á mães e esposas no mais completo desespero pela situação dos filhos, esposos e parentes. Não sabem mais o que fazer, a quem recorrer. Lágrimas e decepções sem conta. Gritam por socorro e ninguém os atende. Sofrem, agitam, blasfemam, morrem, esperneiam, alienam, ficam enlouquecidos, às vezes entram na dança também, matam, aleijam, largam seus lares, suicidam, às vezes ficam em completo silêncio; e.... a mancha etílica vai aumentando e aumentando; e aniquilando vontades, personalidades, responsabilidades e muita gente boa. Cada vez mais trabalhadores e jovens, de todas as classes sociais, vão sendo arrastados pela serpente universal para um cenário dantescamente tenebroso e sem volta.
Pelos caminhos da bebida alcoólica, a paixão nacional de número, configura-se a maior tragédia que assola e empobrece o Brasil!
RENZO SANSONI é médico oftalmologista em Uberlândia

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