Não foram poucas nem inconsistentes as advertências feitas ao governo durante os últimos quatro anos sobre os furos do Plano Real. Sistematicamente, porém, tais advertências eram ignoradas ou consideradas descabidas. ‘‘Crise? Que crise?’’ - indagou o presidente, certa ocasião, ao lhe falarem do agravamento da crise econômica e social. ‘‘Desemprego? Está sob controle’’, salientou ele noutra oportunidade.
É impressionante como os homens públicos fazem questão de não ouvir notícias desagradáveis. Barbara Tuchman, admirável mulher das letras e notável na análise de problemas americanos, falou da surdez política de alguns estadistas dos Estados Unidos. Achava ela que a política é feita de preconceitos e tendências há muito instaladas. No caso das informações transmitidas aos governantes, eles reagem em termos do que está dentro de suas cabeças, adotando políticas menos adequadas aos fatos do que às noções e intenções formadas pela bagagem acumulada em suas mentes desde a infância.
Stalin não acreditou que os alemães estivessem preparando a invasão da URSS. Roosevelt achou tão absurda a informação de que os comunistas se imporiam a Chiang Kai Chek, na China, que acabou com a divisão de especialistas em assuntos chineses do Departamento de Estado e se desfez da biblioteca dessa repartição.
Quando a crise brasileira se agravou, em dezembro de 1998, FHC passou a admitir alguns de seus equívocos, apontados anteriormente pela crítica. Reconheceu, por exemplo, que o ingresso e a saída fáceis de capital especulativo prejudicara a economia brasileira. Também admitiu que a globalização econômica assimétrica, entre países ricos e pobres, desfavorecera o Brasil, devido à nossa pobreza. Essas foram outras advertências feitas muitas vezes a FHC. Haverá quem não se lembre das críticas à política oficial de juros altos e do real supervalorizado às custas do endividamento crescente no País e do aumento do desemprego?
Evidentemente, esses e outros erros afetaram a confiabilidade no governo, como a campanha institucional, feita no País, meses antes das eleições, segundo a qual nenhum aposentado seria prejudicado pela reforma da Previdência. E o mote da reeleição de FHC, sob o argumento de que só ele tinha condições para garantir a estabilidade do real?
Por essas e por outras, entende-se que FHC esteja menos popular e por que, em meio às especulações em torno do dólar, quando garantiu, pela TV, que não haveria sequestro da poupança, os brasileiros correram em massa aos bancos para salvar suas economias. Governar o Brasil virou exercício de pé descalço no fio da navalha dos empréstimos do FMI, que impõe ao País exigências cada vez mais absurdas. Hoje se exige a venda da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica. Amanhã podem pedir a Amazônia. Perplexos, nesse carnaval, os brasileiros vêem esse esquartejamento sem entendê-lo. Na embriaguez das alturas em que está a crise, cada qual só pensa em salvar-se. Ou esquecer-se de seus dramas. Todos estão na corda bamba, sem a vara de equilibrista.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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