Bêbados desequilibristas
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de março de 1998
Joel Samways Neto 
A maior ginástica dessa alienação necessária chamada Carnaval não foi dançar o frevo, foi a mídia conciliar as contradições dos patrocinadores. Contradições é modo de dizer, é eufemismo. Veja, leitor, a publicidade das bebidas com teores alcoólicos. Publicidade? Modéstia. O Carnaval, hoje, no cenário da radiodifusão sonora e de imagens, é uma espécie de festa do chope elevada à centésima potência. Do chope, ou melhor, da cerveja. A indústria cervejeira é a patrocinadora oficial da copa, da cozinha, dos quartos e do banheiro da folia que acontece, anualmente, nas principais avenidas e esquinas do País. Ainda rastreio, aqui e ali, buscando alguma corajosa nota de canto da página que dê conta do volume de dinheiro investido pelas cervejarias nas momescas da semana passada. E, se possível, o lucro.
Interessantíssima a conjugação de opostos, na tela do televisor (caixa-de-idiota, para o suecos): cada marca de cerveja brindou o telespectador com um curta-metragem melhor do que o outro em termos de arte cinematográfica e criatividade. Não faltaram mulheres belíssimas exibindo a preferência nacional, sambando, jogando vôlei, deixando cair descuidadamente a parte de cima do biquini; e a cerveja que descia redondo garganta adentro, e a cerveja que tinha uma bateria de escola de samba dentro da garrafa; e cantores consagrados, do povão e da classe média, fizeram coro pela promoção da cerveja, nacional e estrangeira. Samba, suor e cerveja, seu, e fazendo contraponto até para o chuvoso Carnaval da Marechal Deodoro, dos tímidos curitibanos.
Enquanto isso, numa trincheira isolada desse front, uns poucos segundos dispensados ao grandiosos ator Giafrancesco Guarnieri: fundo escuro, luz lateral, um monólogo biográfico da tragédia do alcoolista Marcos (que poderia ser você). Guarnieri carregou na dramaticidade, mesmo - porque dramática é a vida do alcoolista, do familiar do alcoolista, do vizinho do alcoolista...
Segundos contra minutos. Segundos de uma verdade contundente contra minutos da celebração eufórica da existência regada a cerveja. Droga leve. Droga lícita. Vendida sem prescrição médica em qualquer boteco ou posto de gasolina.
Enquanto isso, durante o reinado de Momo, a imprensa pegou pesado na divulgação das operações policiais no trânsito brasileiro. Porque agora temos código novo, agora dirigir embriagado dá cadeia e multa de desancar, bafômetro para lá, bafômetro pra cá. (Na tragicomédia da vida privada, pouco antes do grito do carnaval, uma reportagem de TV acompanha a blitz no Rio Grande do Sul. Apareceu no telejornal do horário nobre. A polícia parou um automóvel; o motorista que mal conseguia manter os olhos abertos, foi atacado por holofotes, câmeras e microfones; atordoado, saiu do carro com dificuldade e falou bem arrastado, Eu nem estava dirigindo...! Ele estava sozinho no veículo).
A cada instante, novas notícias sobre o trânsito. Novas reportagens mostrando alternativas aos beberrões (chamar um táxi, alugar uma Besta, escolher o abstêmio da noite etc.). E tome vinheta de cerveja, tome cerveja, que o carnaval fica mais legal.
Na verdade, diante de tanto glamour cervejeiro o monólogo do Guarnieri quase ridicularizou a intenção da campanha de conscientização (algo como religiosos pregarem a castidade em oposição à campanha do uso de camisinhas. Durante o carnaval).
O maior índice de consumo de drogas entre os jovens está ligado ao álcool. O maior índice de acidentes de trabalho está ligado ao álcool. Um dos maiores índices de acidentes de trânsito está ligado ao álcool. Porém, um dos maiores índices de investimento em publicidade também está ligado ao álcool.
A apoteose desse samba-enredo está culminando com uma outra classificação, pseudocientífica, que quer rotular o consumo social de álcool (e outras drogas) como recreacional. Coisa de fim-de-semana, de uma festinha eventual, de recreio, em casa ou na casa de amigos, quando não há compromissos sérios para o dia seguinte. Aí, dizem esses especialistas, tudo bem, pode.
Insisto: se querem conscientizar, filmem a vida real. Vão aos hospitais e clínicas psiquiátricos e filmem o que restou do recreio. Não tentem estetizar a dor. Guerra é guerra.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.


