Bastidores da traição - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de março de 1998
Fernando José Dias da Silva 
Um oceano separa a traição conjugal da traição política. Nos dois tipos de traição há o pressuposto de que alguém está enganando alguém. Só que na traição conjugal um dos envolvidos não sabe ou, pelo menos, finge que não sabe. Na traição política todo mundo sabe tudo, mas mesmo assim faz o jogo, participa da dinâmica da coisa, segue as regras da perfídia. Sempre sem drama, sem tango argentino e, normalmente, sem ciúmes na hora da revelação. Sem perfume de gardênia.
Muitas vezes na política antes mesmo da união já se sabe que haverá alguém traído. E o caso dessa história de aproximação entre o PPB malufista e o PFL de Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen. Em princípio tudo bem. É gente conhecida. São até aparentados. Tem raízes na saudosa Arena que defendia o regime militar. Fazem parte de uma boa família. Mas uma boa família é aquela que costumava ser melhor.
Paulo Maluf quer de qualquer forma o apoio do PFL para sua candidatura ao governo de São Paulo. Ele precisa do tempo do partido na televisão e teme também que os liberais caiam nas mãos de Mário Covas, o tucano mais paparicado no momento, por causa da sua pretensa indecisão em ser ou não ser candidato a reeleição.
Até ai, os planos do PPB e do PFL podem convergir. O problema será mais tarde, porque, seguramente, Antônio Carlos Magalhães e Paulo Maluf não pensam da mesma forma com relação ao futuro. ACM e o PFL acham que a hora deles está chegando. Será em 2002 com a eleição do filho, Luís Eduardo Magalhães, à presidência da República, Maluf para ser gentil concorda. Diz que seu objetivo é a reeleição ao governo de São Paulo e jura que só vai pensar na presidência em 2006.
Pensar a longo prazo é característica de todo político. Mas no caso de Maluf deixar passar essa oportunidade da eleição de 2002 é pensar a longo prazo demais. Doutor Paulo - como lhe chamam carinhosamente os amigos e puxa-sacos tem 66 anos. Em 2006 quando diz que está pensando na presidência, terá 74 anos. Sua disposição não será a mesma. A sua capacidade para ficar distribuindo abraços e sorrisos durante dez horas seguidas não será a mesma.
Se Maluf perder a eleição de agora para governador talvez ele possa até encerrar sua carreira. Mas se ganhar, no dia seguinte já é candidato a ocupar a principal cadeira do Palácio do Planalto. Isso com Antônio Carlos, Luís Eduardo, Fernando Henrique quem quer que seja.
Esse é um caso. Outro caso de traição anunciada é o do PFL com os tucanos. E o PFL não é volúvel como uma moça namoradeira. Ele quer e pode. Agora está com Fernando Henrique e não abre porque não é do seu feitio ser contra. Só que não quer partilhar mais esse poder. Guloso, ele quer tudo para ele. E aí Fernando Henrique precisa ser descartado. Nem tanto Fernando Henrique mas o seu partido, o PSDB, que fica pensando em fazer maioria na Câmara para pegar a presidência, que fica pensando em se unir com o PMDB para derrubar os liberais, todas essas coisas que não soam bem aos ouvidos dos caciques pefelistas.
Por enquanto todos convivem bem porque só o cinismo redime um casamento, já dizia Nélson Rodrigues. A hora da traição ainda não chegou. Mais dia, menos dia ela chegará.
- FERNANDO JOSÉ DIAS RODRIGUES é articulista da Agência Estado


