Aos 60 anos de idade, Ricardo Kotscho tem mais de quatro décadas de jornalismo. É considerado um dos maiores repórteres da imprensa brasileira e continua na ativa, indo a todos os cantos do país em busca de uma boa história.

Ganhou fama ao denúnciar, em 1976, as mordomias de superfuncionários federais da ditadura. Faturou três prêmios Esso de jornalismo e foi responsável por várias outras grandes reportagens. Em uma delas conheceu o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, de quem se tornou amigo. Quando Lula chegou à Presidência da República, ele aceitou ser secretário de imprensa, cargo que ocupou por dois anos. Nesta entrevista à FOLHA, Kotscho fala sobre jornalismo e poder.

O senhor denunciou as mordomias da República, na década de 1970, e depois foi trabalhar no Palácio do Planalto. Encontrou as mordomias?
Eu não tive mordomia nenhuma. A situação do País atualmente é muito diferente de quando eu fiz aquela matéria. Era a época da ditadura. Foi a primeira matéria de denúncia que a grande imprensa publicou ainda no regime militar, depois que tiraram a censura dos jornais, em 1976. Eu imaginava, como todo jovem repórter, que denunciando aquilo fosse acabar com todos os abusos e privilégios, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, quem ainda não tinha mordomia quis ter também. Depois veio a democracia e a imprensa não parou mais de denunciar essas coisas.

A cobertura da imprensa em relação aos políticos, na sua opinião, melhorou ou piorou nestes 44 anos em que o senhor é jornalista?
A imprensa brasileira tem 200 anos e é muito difícil generalizar, pois as coisas mudam de uma hora para outra e de um veículo para outro. Eu nunca gostei do poder. Nem de cobrir, nem de trabalhar com ele. Eu não gosto da futrica, das conversas de bastidores que existem na política. Eu acabei parando lá (na secretaria de imprensa do Governo Federal) porque sou amigo do Lula de longa data. Mas não é meu mundo. Eu nem leio muito sobre isso, pois não me interesso.

O senhor teve alguma decepção grande com o poder?
Não. No tempo em que fiquei lá, consegui ter uma noção de limites. Quando uma pessoa está na imprensa ou na oposição, fica questionando por quais motivos os governantes não fazem isso ou aquilo. Mas quando você está lá dentro, vê os limites que existem. Eu fui para lá para ficar um ano, para organizar, montar equipe, informatizar. Eu não queria ficar muito tempo em Brasília. Porém, em um ano não deu para eu fazer quase nada do que queria. O Lula pediu, eu acabei ficando mais um ano, pois é tudo demorado, tem a licitação, tudo é muito difícil. O ex-presidente José Sarney disse ao Lula, no dia da posse, que ele devia estar preparado, pois de cada 10 ordens que desse, uma seria cumprida lá na ponta. Eu posso falar do pequeno mundo da assessoria de imprensa, imagine no Governo Federal como um todo.

O senhor era secretário de imprensa do presidente na época do mensalão. Afinal, o Lula sabia ou não que aquilo estava acontecendo?
Eu tenho certeza que não, pois eu trabalhava junto com ele. Ficávamos, praticamente, o dia todo juntos. Nunca nenhum repórter me perguntou sobre isso. Eu fiquei em 2003 e 2004 na secretaria de imprensa e o mensalão estourou um pouco depois de eu sair. Acho que essa história até hoje está mal contada.

O senhor ganhou um Prêmio Esso cobrindo a geada negra de 1975 no Norte do Paraná. O que o senhor lembra daquela experiência?
Nós tínhamos um correspondente em Maringá. Ele avisou o chefe de reportagem que havia a previsão de geada forte para o Paraná, como tinha todo ano. O chefe me chamou e pediu para que eu fosse até o Paraná. Peguei um carro, um fotógrafo e fui. Quando estávamos chegando, de manhã, vi os cafezais pretos. Foi uma das cenas mais fortes que eu vi em toda a minha vida. Diante do fato, o jornal mandou uma equipe de quatro repórteres e fizemos uma grande reportagem.

Onde o senhor arruma motivação para continuar a ser repórter?
Na vida, se a gente tiver a sorte de fazer o que gosta, é a melhor coisa que tem. Uma vez perguntei ao Adib Jatene (cirurgião cardíaco e ex-ministro da Saúde) se ele não tinha medo de morrer do coração por trabalhar muito. Ele respondeu que o que mata não é o trabalho, é a raiva, que acontece quando você é obrigado a fazer o que não gosta e não pode fazer o que gosta. Eu tive a chance de fazer o que eu gosto.

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