Bastidores da Independência
Extraio do compêndio de História do Brasil, de A. Souto Maior, a transcrição quase literal sobre os bastidores e a correspondência daquela época. As Cortes, por volta de 29 de setembro de 1821 ordenaram a D. Pedro que regressasse a Portugal a fim de aprimorar sua educação, devendo o governo ser entregue a uma junta.
Mas o movimento pela independência se iniciara de forma muito forte: reabrira-se no Rio a Loja Maçônica Comércio e Artes, fechada por D. João VI. Aí se reuniam os que desejam a permanência do Brasil na categoria de Reino Unido, não dependente de Portugal. Destacavam-se os nomes do juiz José Clemente Pereira, do capitão-mor José Joaquim da Rocha, do padre Januário da Cunha Barbosa e do coronel Alves Branco Muniz Barreto.
Surgiu também o jornal Revérbero Constitucional Fluminense de Joaquim Gonçalves Ledo. Nele são criticadas energicamente as resoluções das Cortes. A maçonaria e a imprensa preparam o clima da independência. Circularam no Rio, em setembro de 1821, boatos de que os brasileiros estavam dispostos a aclamar D. Pedro imperador do Brasil.
D. Pedro, no entanto, apressou-se a tranquilizar seu pai escrevendo-lhe: A independência tem-se querido cobrir comigo e com a tropa; com nenhum conseguiu nem conseguirá, porque a minha honra e a dela é maior que todo o Brasil. Queriam-me dizer e dizem que me querem aclamar Imperador. Protesto a Vossa Majestade que nunca serei perjuro, que nunca lhe serei falso e que eles farão essa loucura, mas será depois de eu e todos os portugueses estarem feitos em postas, o que juro a Vossa Majestade, escrevendo nesta com o meu sangue estas palavras: juro sempre ser fiel à Vossa Majestade, à Nação e à Constituição Portuguesa.
Uma sociedade secreta intitulada Clube da Resistência, atuando junto à comunidade intelectual, pretendia induzir D. Pedro a desobedecer as ordens recebidas das Cortes, aqui permanecendo.
O famoso memorial paulista, redigido por José Bonifácio, chegou às mãos de D. Pedro com pinceladas fortes: Vossa Alteza Real deve ficar no Brasil quaisquer que sejam os projetos das Cortes constituintes..., e responsabilizava idem o príncipe pelo rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil com a sua ausência.
No Rio de Janeiro, ao meio-dia de 9 de janeiro de 1822, José Clemente Pereira entregava a D. Pedro a representação popular, pronunciando no momento, hábil discurso: Senhor. A saída de V. Alteza Real dos Estados do Brasil será o fatal decreto que sancionará a independência deste Reino. ... Será possível que Vossa Alteza Real ignore que um partido republicano, mais ou menos forte, existe semeando aqui e ali, em muitas das Províncias do Brasil, para não dizer em todas elas? Dê-se ao Brasil um centro próximo de união e atividade; dê-se-lhe uma parte do Corpo Legislativo, e um ramo do Poder Executivo, com poderes competentes, amplos, fortes e liberais, e tão bem ordenados que, formando um só Corpo Legislativo, e um só Poder Executivo, só uma Corte, e só um Rei, possa Portugal e o Brasil fazer sempre uma família irmã, um só povo, uma só Nação, e um só Império. Demorai-vos, Senhor, entre nós, até dar tempo que o Soberano Congresso (Cortes de Lisboa) seja informado do último estado de coisas neste Reino e da opinião que nele reina.
A resposta de D. Pedro foi prudente: Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a Nação portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer, demorarei a minha saída até que as Cortes e meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido.
Esta resposta por certo não agradaria ao povo. Combinou-se então uma resposta mais altiva e popular: Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto; diga ao povo que fico.
As Cortes agitaram-se, anularam vários atos do regente, impuseram novo ministério, mandando processar criminalmente todos aqueles que tivessem contrariado as ordens emanadas da metrópole.
O choque emocional provocado pela leitura dos decretos da Corte que lhe diminuem a autoridade, o estímulo das cartas de seus ministros e de sua esposa, geram em D. Pedro a explosão de sentimentos assim narrada por uma testemunha, o alferes Canto e Melo: Depois de uns momentos de reflexão, bradou: É tempo! Estamos separados de Portugal! Em ato contínuo, arrancando de si o laço português que trazia no chapéu, o arrojou para longe de si e, desembainhando a espada, ele e os presentes prestaram o juramento que para sempre os ligava à realização da idéia generosa de liberdade.
Em seguida, indo ao encontro de sua guarda, repetiu a proclamação da independência: As Cortes querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante, nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais, e desembainhando a espada, disse: Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil. E como últimas palavras antes de empreender a galope a última etapa do seu regresso a São Paulo, clamou, de pé nos estribos: Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será Independência ou Morte! Transcorria o ano de 1822, dia 7 de setembro.
- LUIZ EDGARD BUENO é escritor em Londrina





