Basta o óbvio
Nos períodos pré-eleitorais, sistematicamente, somos vítimas de uma enxurrada de promessas vãs de parte dos candidatos a cargos eletivos que buscam conquistar o voto dos eleitores. Neste ano, por tratar-se de eleições municipais, isso fica mais evidente à medida que os debates e as propostas de campanha tornam-se a grande arma de cada pretendente.
Diante da complexidade dos problemas que a sociedade enfrenta em seu dia-a-dia, é cada vez mais difícil avaliar qual a instância da administração pública que diz respeito mais diretamente a cada cidadão. No entanto, não se pode negar que é no município que refletem todos os efeitos, bons ou ruins, das macropolíticas adotadas no País. No caso brasileiro, é facilmente compreensível a razão pela insatisfação coletiva.
Para ser um bom administrador, basta fazer o óbvio. Ou seja: identificar e disseminar iniciativas inovadoras e simples que venham ao encontro das necessidades mais imediatas da população. Transformar em ações concretas e objetivas aquilo que possa de fato mudar a vida da sociedade local. Sem dúvida que os interesses pelas questões nacionais dizem respeito a todos, entretanto, a competência legal para o exercício dos cargos neste caso, prefeitos e vereadores é limitante. Daí que, cada um deve prometer apenas o que está a seu alcance e que, convenhamos, não é pouco.
Por exemplo: um dos problemas mais graves no Brasil é a questão da mortalidade infantil. Segundo dados oficiais, mais de 42 milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza absoluta; 16 milhões em absoluta indigência. Estes números revelam ainda que cerca de 6,3 milhões dos pobres são crianças abaixo de 5 anos de vida e 2,4 milhões vivem na condição de indigente. Como resultado, no ano de 1994, morreram no Brasil 233 mil crianças menores de 5 anos, ou seja, uma média aritmética de 638 mortes por dia. Isto não é mais uma questão de saúde pública apenas, mas de segurança nacional, afinal, vivemos uma guerra civil não declarada.
Mas, o que os prefeitos poderiam fazer para minimizar este holocausto? Muito, e basta vontade. Uma das instituições mais sérias neste País carcomido pela corrupção chama-se Pastoral da Criança, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e que desenvolve um trabalho exemplar. Aliás, sua coordenadora nacional, Zilda Arns Neumann, teve seu nome lembrado para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz deste ano.
Para se ter uma idéia da importância desta tarefa, enquanto no Brasil a Taxa de Mortalidade Infantil, segundo o próprio Ministério da Saúde e a Unicef, é de 36 por mil nascidos vivos, nas comunidades acompanhadas pela Pastoral o índice é entre 12 e 18 por mil/nascidos, exatamente a metade da média nacional. E pasmem: o custo, considerando-se todos os componentes que vão da administração, produção e distribuição de materiais, treinamento e acompanhamento de todas atividades desenvolvidas pela Pastoral, é R$ 0,50 criança/mês. Vale reiterar: R$ 0,50 por criança/mês. Qualquer município, por mais pobre que seja, tem condições de implantar e implementar um programa desta natureza em parceria com a Pastoral da Criança.
Nestes tempos de espetáculo, onde grande parte dos homens públicos costuma transformar a miséria em moeda de troca para consumo emocional, buscando o proveito próprio ou se locupletando, a democracia é mais uma vez o caminho para purgar a política nacional dos vendedores de ilusões. A sociedade quer simplesmente exercer sua cidadania e fazer valer seus direitos mais elementares. E da classe política, exige apenas respeito e bom senso.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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