Basta, FHC! - Padre Roque
Basta, FHC!
Padre Roque
Honestamente, nunca fui partidário de trocas de presidentes, governadores, prefeitos, a não ser através de processos eleitorais. Jovem ainda, não aceitei o golpe branco contra João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros, em 1960. Nem aceitei quando, em 1964, os eternos golpistas deste país depuseram Jango, jogando o Brasil num dos períodos mais desgraçados de sua história.
Mas, se quisessem alguns motivos mais do que suficientes para justificar o afastamento de FHC, eu os teria às sobejas. Em 1994, ele se elegeu por causa de uma moeda artificialmente forte e de uma infinidade de promessas alguém por acaso se lembra dos tais cinco dedos da mão? A moeda era tão forte que hoje, mesmo sem melhoria salarial alguma e apesar de todos os aumentos nas tarifas públicas, combustíveis, remédios e uma infinidade de outras, vale menos da metade que em seu início.
Eleito presidente, porém, FHC rapidamente se esqueceu dos cinco dedos, passando a governar em benefício de seus reais eleitores: os banqueiros, os especuladores, o capital internacional todos, menos os assalariados, os agricultores, os pequenos empresários, os aposentados, os sem-terra, os desempregados, que elegeram FHC certos de que os cinco dedos da mão lhes seriam a salvação. Não foram.
Na campanha da reeleição, mais promessas de empregos e da continuidade do Real forte. Mas, como a oposição havia previsto, passados alguns meses da eleição veio a desvalorização do real e a crise econômica e social se instalou no Brasil. Existe golpe pior que este? O golpe da enganação, do estelionato? E o povo continua a ser golpeado, pela restrição cada vez maior dos seus direitos, na perda dos postos de trabalho, na esperança de viver, de ter um futuro.
Na semana que passou, acuado pela subida dos índices inflacionários provocados pelos aumentos inexplicáveis das tarifas públicas o ministro da Fazenda, Pedro Malan, anunciou a miraculosa solução: o governo vai expurgar alguns dos índices que compõem a base de cálculo da inflação. Trata-se de mais um golpe. Um golpe requentado, copiado dos piores tempos da ditadura militar, quando os tecnocratas inventaram este casuísmo para escamotear os verdadeiros números da espiral inflacionária.
Por estas e outras razões é que estou de alma lavada com a Marcha dos 100 Mil. Mesmo contrariando a vontade de FHC e seus asseclas, o povo veio até Brasília. De forma ordeira, pacífica, alegre e criativa. Veio para protestar contra o desemprego, a ausência da reforma agrária, o arrocho salarial, contra as reformas espúrias que acabaram com todos os bens da Nação e com os direitos dos brasileiros. Esse povo, no entanto, também veio pedir mais respeito dos seus governantes. Isto não é golpismo! Golpe é deixar milhões de brasileiros sem emprego, sem casa, sem educação, sem saúde, sem esperança.
Pouco importa se a grandiosa marcha que promovemos em Brasília tinha 120 mil ou 70 mil pessoas (os áulicos que fazem as pesquisas de opinião favoráveis a FHC consultam apenas 1,5 mil a 2,5 mil pessoas). Importa que milhares de cidadãos, representando todos os segmentos da sociedade, ocuparam a Esplanada dos Ministérios, no maior comício político realizado na capital federal, para dizer que não aceitam mais este estado de coisas.
Os partidos e as entidades da sociedade civil que organizaram a marcha cumpriram com a sua tarefa. O aviso foi dado. E se o presidente da República entendeu o recado e se aceitar discutir alternativas que apontem para a superação da grave crise que vivemos, a oposição está disposta a negociar.
O governo sabe que a oposição tem propostas. Sempre as teve. A sociedade as conhece. O PT apresentou propostas alternativas a todas as reformas que o governo encaminhou ao Congresso. Durante a campanha eleitoral, não fizemos outra coisa senão discutir a situação econômica e social do País.
Quem diz não conhecer estas propostas é o presidente e seus asseclas, que se encastelaram no Palácio do Planalto e governam o País com uma soberba e uma incompetência poucas vezes vista em nossa história republicana. FHC faliu a agricultura, detonou as empresas nacionais, quebrou o País, dilapidou o patrimônio público, entregando as melhores e mais lucrativas de nossas estatais, jogou a dívida interna e externa para patamares estratosféricos só a dívida interna passou de R$ 64 bilhões em 94, para R$ 400 bilhões em 98.
Por ora, o povo em marcha fez apenas um alerta, só pediu um Basta, FHC! E, como em qualquer democracia que se preze, a manifestação, o protesto e a reivindicação fazem parte do jogo. Mas, se o presidente continuar se negando a ouvir a voz rouca das ruas e não mudar o rumo do seu governo, os brasileiros vão fazer com Fernando Henrique o mesmo que os argentinos fizeram com o desastrado presidente Alfonsin, no início da década de 90: vão tomar as ruas e, pacífica e ordeiramente, vão enxotá-lo do Palácio do Planalto e mandá-lo de volta para casa. FHC, basta!
- PADRE ROQUE é deputado federal pelo PT do Paraná e professor licenciado da Universidade Estadual de Ponta Grossa





