Basta de violência
‘‘As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam idéias’’. (Goethe)
Padre Roque
A sociedade sobre o risco, cada vez mais próximo, de que o gravíssimo problema da violência no campo se aprofunde e chegue a um limite absolutamente insustentável.
A advertência que fazemos não é casual. Levando em conta as recentes - e raivosas - ameaças feitas por lideranças nacionais da UDR (União Democrática Ruralista), tememos pelo pior. Tememos que a terra fértil dos nossos campos se transforme em túmulo para inocentes. Demonstrando o seu descrédito nas instituições oficiais e desprezo pela via da negociação, os ruralistas ocuparam as páginas dos jornais para afirmar que pretendem responder violenta e rigorosamente às ocupações de terras feitas por integrantes do MST (Movimento dos Sem-Terra).
Prometeram reagir à bala, sejam quais forem as consequências que esta atitude possa trazer, às ocupações de grandes propriedades rurais coordenadas pelo MST. Advertiram que vão aumentar o arsenal paramilitar destinado a garantir as reintegrações de posse já autorizadas mas ainda não cumpridas pela Justiça. Declararam, enfim, que vão às últimas consequências com o propósito de garantir os seus direitos.
Partidários da democracia, não negamos aos grandes fazendeiros o direito de declarar publicamente sua insatisfação com as ocupações de terra. Há uma diferença muito grande, porém, entre se revelar insatisfeito com um determinado problema e querer resolvê-lo como se fôssemos um bando de bárbaros famintos diante da caça. Não podemos admitir, em hipótese alguma, que as regras básicas da convivência democrática sejam deixadas de lado e se incite publicamente a violência a pretexto de se ‘‘fazer justiça’’ com as próprias mãos.
Não resta a menor dúvida de que o Estado brasileiro é o principal responsável pelo problema fundiário no País. O governo tem demonstrado pouca vontade política de resolver o problema. O próprio Ministério de Política Fundiária admitiu, por exemplo, que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) conseguiu assentar apenas 20 mil das 80 mil famílias de trabalhadores sem-terra previstas para este ano em todo o Brasil.
Um volume bem inferior ao reivindicado pelos sem-terra durante a Marcha pela Reforma Agrária, promovida em abril deste ano, em Brasília. O MST quer assentar 750 mil famílias até o final de 1998 - no total, existem 4,5 milhões de trabalhadores rurais sem-terra em todo o Brasil. No Paraná, os números também são bastante elevados. De acordo com a direção estadual do MST, baseada em números fornecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 360 mil famílias aguardam o seu pedaço de terra no Estado.
Em que pese a lentidão do Estado em dar uma resposta rápida e eficiente ao problema fundiário do país, nada justifica o uso da violência. As armas e o confronto aberto não contribuem, de forma nenhuma, para a solução dos conflitos no campo. Muito pelo contrário. Servem apenas para agravá-lo, acirrá-lo, na medida em que estabelecem o domínio da irracionalidade e da força bruta em detrimento do diálogo.
O número de trabalhadores rurais mortos no campo desde o início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso é a maior prova disto. Foram 94 assassinatos de trabalhadores rurais sem-terra desde janeiro de 1995 - uma média de três mortes por mês. Levando-se em conta o expressivo número de conflitos fundiários ocorridos no mesmo período (mais de 1,2 mil), percebe-se o porquê da nossa preocupação.
A possibilidade de que as tragédias no campo se multipliquem, seja em Corumbiara ou na recente ocupação de 300 famílias de sem-terra organizada em Teixeira Soares, é realmente grande. Não queremos mais mortes no campo. Como cristãos, o que queremos apenas é justiça social e poder celebrar - agora e sempre - a preciosa vida de todos os que clamam por terra. Basta de violência!
- PADRE ROQUE é deputado federal pelo PT do Paraná e professor licenciado da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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