Basta de violência
A violência no Brasil atinge índices simplesmente estarrecedores. Como parâmetro desta escalada, basta citar que as companhias internacionais de seguros, nos casos das apólices de vida, calculam o custo do chamado risco Brasil sob os mesmos índices e parâmetros da Colômbia, um país que se engalfinha cada vez mais numa guerra civil cruel e sem tempo para acabar. A diferença fundamental é que lá o embate é oficial e aqui vivemos na terra do faz-de-conta.
Nas últimas décadas as estatísticas têm mostrado que o número de brasileiros que morrem vítimas da violência urbana tem sido superior, por exemplo, ao mesmo período vivido por guerras bélicas nos quatro cantos do mundo. E isso não é recente. Desde os anos 60, no auge da invasão norte-americana ao Vietnã, os números já indicavam que por aqui a carnificina era bem maior que aquela praticada em terras asiáticas. Desde então, nada - ou muito pouco - foi feito para mudar este panorama verde-amarelo, afinal, os mortos eram em sua maioria marginais, pobres ou negros que viviam nas periferias das grandes cidades.
O exército do lumpemproletariado - aliás, uma expressão típica da sociologia marxista - deixou nas últimas décadas os guetos urbanos e invadiu, no bom e mal sentido, os bairros de classe média e dos ricos emergentes. Como não foram vistos, se fizeram notar. É a lei da sobrevivência. Os donatários de Pindorama reagiram enclausurando-se em fortalezas munidas por parafernálias de segurança de última geração; transitando pelas ruas em carros blindados ou literalmente voando em helicópteros para fugir da miséria. Se enxergaram este flagelo nas esquinas, onde crianças mendigam ou esmolam em busca da sobrevivência, não foram capazes de estender - ou abrir - a mão, muito menos compreender que não é possível exigir destes miseráveis algo mais que revolta e ódio, principalmente numa sociedade tão desigual, desumana e injusta como a nossa.
O risco que corremos todos, independente de classe econômica ou social, é que o requinte destas organizações chegou ao ponto de dominar não só as ruas, mas todo o sistema carcerário. Assim, corre-se o risco de não ser mais o Poder Judiciário quem irá decidir o tempo de reclusão de qualquer preso, mas sim as facções que detêm o comando e o controle dos presídios. A violência escalou todos os degraus possíveis. Nenhum cidadão pode se sentir seguro nas ruas, em casa, no trabalho, na escola; muito menos ter a certeza que os reclusos estarão pagando pelos crimes cometidos. Como não bastasse, estas confrarias têm agido nos últimos dias numa guerra deliberada contra a repressão que vem sendo imposta, assumindo atentados contra órgãos públicos. Alegam e reivindicam o fim dos maus tratos, da violência em todo o sistema. Sem dúvida que estão cobertas de razão pelas denúncias, afinal, elas acontecem de fato, no entanto a permissividade e a conivência entre bandidos e mocinhos fazem destas questões algo rotineiro, até mesmo interessante para ambos os lados, se transformando numa moeda de valor preciosa nas negociações intramuros. Cada privilégio tem um preço e o lance maior anestesia a consciência e aniquila o que resta de ânimo e esperança nos remanescentes pela ética. Diante deste quadro dantesco, alguma coisa precisa ser feita com a máxima urgência e necessariamente o primeiro passo tem de ser dado pelo poder público.
Não fossem as sucessivas frustrações políticas, nem a demagogia barata que costuma rechear os ideários partidários, teríamos neste ano eleitoral um excelente fórum de debates para discutir esta que é a mais grave de todas as questões sociais. A pergunta que fica é: onde está a saída? Tomara que não seja o aeroporto mais próximo.
RENÉ RUSCHEL é jornalista e economista em Curitiba





