Uma boa notícia para um país que parecia siderado, em face da vastidão de seus problemas e da auto-suficiência do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, nos assuntos em que a economia parece chocar-se com os interesses sociais e políticos dos brasileiros! O jornalista Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABI, aos cem anos e um mês de idade, vai renunciar à direção dessa entidade para dedicar-se à cruzada em defesa da soberania do País, no caso das privatizações das empresas estatais.
A têmpera de Barbosa Lima, que a idade não diminuiu, estava, até então, a serviço apenas do jornalismo, no qual explodia em brilho e serenidade, a cada domingo. Agora, o velho jornalista e ex-anticandidato à vice-presidência da República põe-se, por inteiro, à disposição do Brasil.
Norberto Bobbio, professor de Ciência Política da Universidade de Turim, ao completar 80 anos interrompeu suas ocupações universitárias e jornalísticas, para aposentar-se. E é quase vinte anos mais moço do que Barbosa Lima. Pois antes de aposentar-se, Bobbio escreveu um livro comovente, ‘‘De Senectude’’ (Da Velhice), contando sua longa luta pela precisão e decência no jornalismo, na cátedra universitária e na própria política. Deu à sua obra o mesmo título de um livro de Cícero, no qual o político e filósofo romano - morto com pouco mais de 60 anos - dissera, antes dele, Bobbio, que ‘‘um jovem, com alguma coisa dos velhos, e um velho, com algo dos jovens, podem envelhecer fisicamente, mas nunca no que têm de mais nobre, a mente’’.
O cientista político italiano reconheceu, porém, que não tinha mais como prosseguir lutando, pois afinal se cansara. Ele fez por merecer a aposentadoria, tanto mais que a Itália não tem problemas iguais aos do Brasil. Mas Barbosa Lima, com o frescor da mocidade em sua mente lúcida, após completar cem anos de vida, sabe que não deve parar. E vai continuar lutando, a fim de oferecer tão notável privilégio aos brasileiros. Quer procurá-los, onde estiverem, para falar-lhes. O Brasil precisa de Barbosa Lima. Caso a voz lhe falte, em algum momento, simplesmente se mostra a todos, para estimular, pelo exemplo, os indiferentes a abraçarem as causas do Brasil, na antevéspera da privatização da Vale do Rio Doce, da fragmentação da Petrobrás e da demolição do sistema de comunicações da Telebrás.
Enquanto muita gente muda de idéias, e nem sempre para melhor, Barbosa Lima Sobrinho mantém firmes as sua convicções, todas fruto do saber e da experiência de vida.
Em homenagem e respeito a esse infatigável patriota, não falta, mesmo entre os governistas, quem ache que o presidente FHC devia repensar suas novas concepções econômicas, até convencer-se de que não só os seus mudos correligionários, mas o povo brasileiro, realmente quer que o país se desfaça daquelas estatais e concorda em oferecê-las a grupos estrangeiros, conforme pretende o ex-ministro de Collor, Antônio Kandir, hoje na equipe de FHC.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.

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