A violência contra a mulher não escolhe cor, raça ou classe social Está presente todos os dias, em todos os lugares Na tentativa de quebrar esse ciclo, foi criada a Lei Maria da Penha, que prevê pena de prisão Ainda assim, mulheres de 33 países em consideram ser apropriado ser agredidas ou espancadas pelo marido O dado faz parte do relatório Mulheres do Mundo de 2010, da Organização das Nações Unidas (ONU)
As ''justificativas'' para as agressões são as mais banais, como discutir com o marido, se recusar a ter relações sexuais ou deixar queimar a comida A pesquisa detectou também que quanto mais baixo o nível escolar, mais o castigo é tido como merecido
A doutora em educação e pesquisadora no Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Paraná, Maria Rita de Assis César, em entrevista à FOLHA, afirmou que a mentalidade de que a mulher é inferior e ''merece'' ser castigada vem do século 19 Segundo ela, a Lei Maria da Penha é um grande avanço no esforço para acabar com os casos de agressão contra as mulheres ''Até muito pouco tempo, crimes de violência contra a mulher eram considerados crimes de costumes e eram contestados Mulheres que sofriam violência sexual acabam acusadas de terem provocado a violência porque não se comportaram de acordo com o que se imagina que seja o jeito de uma mulher se comportar'', explica Maria Rita
Por que as mulheres em algumas culturas, inclusive na nossa, são sujeitas a castigos físicos?
Não dá para generalizar porque cada cultura é distinta A ocidental é uma cultura produzida dentro de uma perspectiva masculina Durante o século 19 acontece um processo de naturalização da condição feminina O lugar da mulher passa a ser dentro da casa, cuidando dos filhos, da casa, enquanto o lugar do marido é o espaço público, o espaço de trabalho Isso acaba justificando essas relações hierárquicas e relações de violência Nasce a ideia de que a mulher só pode se realizar na maternidade e no casamento, que precisa do homem como agente de sua realização Ela não se realiza enquanto pessoa, ela só se realiza na maternidade e no casamento Se ela não cumpre essas funções de uma maneira julgada correta pelo olhar masculino, vai estar sujeita a todo tipo de violência, inclusive física
O mais espantoso é que as mulheres aceitem apanhar O que explica isso?
Ninguém diz para elas que não é bem assim que tem que acontecer Como essas coisas estão naturalizadas desde o século 19, elas aprenderam que isso é natural As mulheres aprenderam e ninguém disse para elas que isso não pode ser assim Justamente essas ocorrências de violência acontecem em países em que o movimento feminista é mais incipiente, em países de tradição mais machista, países latinos Falta educação de gênero Falta que as escolas façam um trabalho discutindo relação de gênero, mostrando para as meninas que elas são iguais (aos homens)
Os números mostram que quanto mais pobre é a região, maior é o índice de violência Esse dignóstico é correto ou as ocorrência que envolvem as camadas mais altas da sociedade não são noticiadas?
Precisamos tomar muito cuidado com essas pesquisas, que são quantitativas Trabalhamos há muitos anos com essas questões e percebemos que a violência contra a mulher é interclasse Ela acontece com mulheres pobres, com mulheres ricas, não está centralizada em grupos sociais distintos E também a violência contra a mulher em segmentos mais ricos e supostamente mais educados da população é invisibilizado
Depois da Lei Maria da Penha a senhora acha que a situação melhorou ou ainda falta educação, conscientização?
A lei é fundamental porque você começa a qualificar os crimes contra a mulher Mas quem aplica a lei? São juízes, promotores, são pessoas completamente despreparadas Os profissionais de direito precisariam ser preparados para a aplicação dessas leis Recentemente apareceu um juiz que não aplicava a Lei Maria da Penha Acabou afastado Até muito pouco tempo atrás crimes de vilência contra a mulher eram considerados crimes de costumes e eram contestados Mulheres que sofriam violência sexual acabavam acusadas de terem provocado a violência porque não se comportaram de acordo com o que se imagina que seja o jeito de uma mulher se comportar Nós não temos ainda dados muito claros sobre a melhoria das condições, se há menos violência após a lei
A senhora tem percebido que os homens estão mais cautelosos devido à lei?
Ainda não temos pesquisas sobre isso A Universidade Federal do Rio Grande do Norte vai começar uma pesquisa para ver o impacto da aplicação da lei Maria da Penha em algumas cidades de lá Vamos começar a ter uma ideia a partir disso Daqui a uns dois, três anos vamos ter resultados Mas a gente percebe que em relação ao racismo as pesquisas mostram que a criminalização não resolve o problema, mas de certo modo cria um receio
Quando a mulher deve atentar para as ações do companheiro? Quando uma fala deixa de ser brincadeira e passa a ser uma violência?
Nenhuma brincadeira é inocente As mulheres devem ficar muito atentas a todo tipo de manifestação Às vezes até os homens podem dizer que estão só brincando, mas não Esse é um assunto que não se brinca Uma piada, uma brincadeira, um jeito ''carinhoso'' de diminuir a mulher são formas de violência

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